quinta-feira, 1 de maio de 2014

Entrevista: Fernando Luiz

O RIO GRANDE DO NORTE É BREGA! 

Fernando Luiz Tavares nasceu na Policlínica, em Natal, no dia 21 de janeiro de 1952. Sua mãe, Maria de Lourdes Tavares, era parteira do hospital. Ele não conheceu seu pai, Luiz Gonzaga de Paiva, que abandonou a família quando o pequeno Fernando completou 19 dias de vida. A trajetória de Fernando Luiz não foi fácil. Inclusive, ela está muito bem retratada em sua autobiografia “Vida de Artista”. Nem mesmo a conquista do prêmio de melhor calouro do programa de Chacrinha, em 1974, abriu as portas para o sucesso, que só veio quando gravou, em Belém do Pará, no ano de 1984, o elepê “Vou Voltar p’ro meu Amor”.  O disco incluiu a música “Garotinha”. Neste ano de 2014, Fernando Luiz comemora 40 anos do título de “Calouro Exportação” e 30 anos do lançamento de “Garotinha”. Ele concordou gentilmente em celebrar estas efemérides conversando com o Superpauta. Por ser uma ocasião tão especial, o time de entrevistadores foi uma verdadeira seleção: o videomaker Augusto Lula, os jornalistas Rafael Duarte e Fabiana Bagdonas (ele biógrafo de Carlos Alexandre e ela responsável também pela cobertura fotográfica da entrevista), além de mim e dos jornalistas Costa Júnior e Roberto Fontes. Foram mais de três horas de conversa em uma noite de domingo, regada a muita cerveja, na Trattoria Bella Napoli. (robertohomem@gmail.com)


FERNANDO LUIZ – Mamãe me criou sozinha, com a ajuda de uma tia minha e do marido dela. Passei bastante tempo dividido entre a casa da minha mãe, de algumas tias e da minha avó. Passei a infância entre Ceará-Mirim, Nova Cruz e Natal. Em Natal, morei com a minha avó, Francisca das Chagas Tavares - a quem eu chamava de Dindinha - e com o meu avô Pompeu Paulino Tavares. Eles tinham uma casa na Rua Desembargador Lins e Silva, que hoje se chama Rua Condor. Fica ali perto da Praia do Meio, embaixo do presídio, que hoje é o Centro de Turismo. Quando completei cinco anos, fui morar com uma tia, Maria Anastácia.
SUPERPAUTA – E a sua mãe?
FERNANDO LUIZ – Devido à sua profissão de parteira, ela viajava muito. Às vezes morava no próprio local de trabalho. Eu não podia morar em um equipamento de saúde. Em 1960, quando ela casou pela segunda vez, fui morar em Ceará-Mirim. Fiquei quatro anos por lá.
SUPERPAUTA – O que sua mãe dizia a respeito do seu pai?
FERNANDO LUIZ – Ela nunca quis criar uma imagem negativa do meu pai, para mim. Dizia que ele era da Marinha e que tinha ido embora por ela ser muito ciumenta. Mas, existe uma espécie de mistério com relação a isso. Quando fui morar com meus tios, perdi um pouco a curiosidade sobre este assunto. Esse tio, Joaquim Severiano, me tratou como a um filho, e, de certa forma, preencheu a lacuna. Passei a pensar em papai de uma forma neutra: não sentia raiva, nem saudade ou rancor. Até hoje não tenho o nome dele na minha carteira de identidade. Só consta o da minha mãe. O fato de não ter o nome dele no meu registro de nascimento nunca foi problema para mim. Meus pais não eram casados no civil.
SUPERPAUTA – Você guarda alguma lembrança dele?
FERNANDO LUIZ – A única recordação que tenho é uma foto, que inclusive publiquei na autobiografia que escrevi. Depois que fiz sucesso, encontrei alguns parentes dele, em Natal. Meu pai faleceu em 1984. Soube disso porque, quando eu estava fazendo sucesso, um irmão dele me procurou. Eu tinha terminado um show na “Gaiola do Louro”, no Alecrim. O clube estava lotado. Eu ia viajar uma hora da madrugada, para Belém. Na hora que saí, um homem se aproximou de mim, apertou a minha mão e disse que era Aristides. Lembrei que meu pai tinha um irmão com este nome. Ele contou que meu pai já tinha falecido. Fui embora e nunca mais encontrei este homem. Se há uma coisa da qual me arrependo é de não ter marcado para depois conversar com ele. Seria a oportunidade de desenrolar o mistério. Nunca tive condição psicológica de conversar abertamente com a minha mãe sobre o meu pai. Ela tinha um bloqueio: não falava sobre ele. Então, o que tenho do meu pai é como uma névoa que não me trás nada: nem ódio, nem rancor, nem saudade. Ele é uma referência nula na minha vida, é uma não referência.
SUPERPAUTA – Dentro do seu círculo familiar alguém tinha tendência para a música?
FERNANDO LUIZ – Ninguém, que eu saiba.
SUPERPAUTA – Você poderia afirmar que seu pai não teria sido o portador do gene dessa veia musical que consta no seu DNA?
FERNANDO LUIZ – Não posso garantir com segurança, mas acredito que não. Se ele tivesse algum envolvimento com a música, minha mãe teria me falado. Ela mesma se perguntava de onde eu tinha tirado esse dom. O sonho da minha mãe era que eu fosse médico. Quando comecei a cantar, ela ficou invocada. Descobri ligação com a música desde pequeno, cantando os hinos da igreja. Apesar de hoje eu ser espírita, tenho uma formação católica muito forte. Foi bom porque me serviu como referência na vida. Lembro também que na época tinha uma cantora muito famosa chamada Luiza de Paula. Ela morava perto de mim, no Areal. Quando falavam em Luiza de Paula, para mim era uma coisa magnífica. Foi a minha primeira referência na música, mesmo que eu não conhecesse o trabalho dela.
SUPERPAUTA – O que você ouvia?
FERNANDO LUIZ – Minhas primeiras lembranças auditivas são Patativa e Chico Traíra, eu escutando no colo do meu avô, lá na Rua Condor. Por isso tenho um profundo respeito pelos artistas eminentemente populares. Depois, já morando em Nova Cruz, com dez anos de idade, ouvi muito a Rádio Nacional e também as transmissões de um concurso para cantores chamado “A voz de ouro ABC”. Foi assim que comecei a me encantar pela música, sobretudo a música romântica. Eu era fã de cantores como Orlando Dias. Lembro-me de um sucesso de José Leão - natural de Lajes - que me marcou muito: “Flor mamãe”. Depois passei a escutar Nélson Gonçalves, porque minha mãe gostava. Mais ou menos nessa época, Núbia Lafayette fez sucesso. Em 1963, ainda morando em Nova Cruz, assisti à apresentação de um garoto pernambucano chamado Irakitan de Brito. O pai dele escolheu esse nome em homenagem ao Trio Irakitan. Ele cantou “Foi Deus”, no Comercial Atlético Clube. Aquilo me estimulou a cantar em público. Na semana seguinte, criei coragem e fui pedir uma oportunidade ao diretor do clube. Aos 11 anos, cantei o bolero “Lado a lado”, de Carlos Alberto. Minha mãe ouviu e chorou.
SUPERPAUTA – Aos 11 anos você já tinha morado em três cidades?
FERNANDO LUIZ – Até então, meu roteiro foi o seguinte: nasci em Natal, quando morávamos na Avenida 11, a Manoel Miranda. Como minha mãe dava muitos plantões, meus avós vieram morar com ela. Por volta de 1956, minha mãe mudou de emprego e foi morar em Ceará-Mirim, no hospital. Fui viver com a minha tia, em Nova Cruz. Em 1960, mamãe casou pela segunda vez. Saí da casa da minha tia, em Nova Cruz, e fui morar com eles, em Ceará-Mirim. Alguns meses depois, meus avós vieram morar em Natal. Passei um tempo com eles na Rua Condor, mais ou menos dois anos. Em seguida voltei para Nova Cruz, onde fiquei até meus 16 anos. Mas continuei vindo muito a Natal, onde cantava na “Sabatina da Alegria”, nos programas da Rádio Poti. Essa minha vida de andarilho foi devido às constantes mudanças de emprego e instabilidades financeiras da minha mãe. Depois dessa segunda experiência em Ceará-Mirim, ela não casou mais.
SUPERPAUTA – Como ficaram os estudos no meio dessas constantes mudanças?
FERNANDO LUIZ – Foi muito complicado. Cheguei a ser reprovado três vezes seguidas em uma série. Mas, a partir de 1961 a situação começou a se regularizar. Desde aquele ano, só mudei de cidade depois de completado o ano letivo. Em 1964, quando fui morar em Nova Cruz, passei a ter certa estabilidade, pois fiquei na cidade até 1968. Quando concluí o ginásio, vim morar com uma tia, em Natal. A cidade me fascinava, porque no interior eu ouvia rádio e ficava louco para vir cantar na “Sabatina da Alegria”, na Rádio Nordeste, Rádio Poti... Nas férias, eu me inscrevia como calouro, cantava e sempre ganhava prêmios: uma camisa da Girafa Tecidos, por exemplo. O que eu mais gostava era participar da “Sabatina da Alegria”, frequentar a Praia do Meio e assistir os filmes no “Cinema Rex”. Enquanto isso, minha mãe continuava sua viagem itinerante pelo interior do Rio Grande do Norte. Fiquei em Natal até 1973, quando fui para o Rio de Janeiro.
SUPERPAUTA – Na época em que você cantava como calouro nas emissoras de Natal já pensava em ganhar dinheiro com música?
FERNANDO LUIZ – Não, mas eu sabia que não queria trabalhar com Medicina, embora não dissesse ainda a minha mãe. Em 1965, quando morava em Nova Cruz, fui convidado para fazer parte de um conjunto regional do Tenente Freitas. Aí sim, comecei a me animar. Recebi logo uma nota de cinco mil cruzeiros, aquela com a efígie de Tiradentes. Comecei a ganhar um dinheirinho. Eu também era locutor de um serviço de alto-falantes e escrevia no jornalzinho do colégio. Mas eu não me iludia, sabia que tinha que estudar para ter uma garantia, caso a música não desse certo. Tive a sorte de ter herdado de minha tia o gosto pela leitura. Quando terminei o Gnásio, vim para Natal fazer o Clássico. Na época eu pensava em ser advogado ou jornalista. Antes de vir para Natal, em 1968, aos 16 anos, fui locutor da campanha política de dona Joanita Arruda, em Nova Cruz. Eu e Bimbo (o filho da candidata, o ex-deputado Leonardo Arruda), fazíamos a locução em uma Rural. Metido a criativo, bolei o seguinte slogan: “é melhor votar numa grande mulher do que num homem grande”. Só tinha um problema, o adversário, Severino Augusto, era baixinho!
SUPERPAUTA – Atuar como locutor na campanha de Joanita Arruda deve ter sido consequência de sua atuação no serviço de alto-falantes. Como você conseguiu esse trabalho?
FERNANDO LUIZ – Cantando no clube de Nova Cruz, comecei a ler uns comerciais substituindo o locutor da cidade, Virgílio Aguiar, que às vezes viajava. Isso fez com que Agnaldo Rosendo me convidasse para ser locutor do serviço e alto-falantes que ele tinha em uma Rural. Depois, Rosendo comprou um gravador e me pediu para narrar um jogo de futebol. Fui para a beira do campo, narrei o jogo e, à noite, a gravação foi exibida pelo alto-falante da Rural, na praça. Foi um sucesso! Passou a ser tradicional a transmissão do jogo no domingo, na praça, após a missa. Foi a realização de um sonho, me escutar naquelas transmissões. Outro momento inesquecível foi durante a campanha de dona Joanita, quando fiz a locução de um comício com a participação de Aluízio Alves. Tem até a foto no meu livro. Dessa forma, comecei a descobrir que eu tinha o dom de interagir com as massas. Percebi que tinha alguma coisa a ver com palanque, com palco político e que tinha interatividade com as massas e capacidade de mobilizar pessoas.
SUPERPAUTA – Depois da campanha, você se mudou para Natal...
FERNANDO LUIZ – Vim para Natal em 1969. Trouxe uma carta de dona Joanita endereçada ao seu filho, Cassiano Arruda Câmara. Ele, que já me conhecia dos comícios, conseguiu um estágio para mim na Rádio Cabugi. Eu não recebia pagamento, mas havia a possibilidade de ser contratado quando surgisse uma vaga na emissora. Entrei no começo do ano letivo, em 1969. Fui estudar no Padre Miguelinho. A Cabugi era ao lado da Igreja São Pedro. Naquela época, Carlos Alberto tinha um programa chamado “Bar da Noite”. Era transmitido das 22 horas à meia-noite. Ele colocava uns efeitos que davam a impressão de que o programa era transmitido mesmo da mesa de um botequim. Várias pessoas vieram do interior do estado para conhecer esse “Bar da Noite”. Eu lia o noticiário durante o programa. Em maio daquele mesmo ano, passei a ser “crooner” dos Apaches. João de Orestes me chamou para substituir o cantor André Silva. Na época, Natal tinha muitas bandas, como Alerta Cinco, The Jetsons, Os Milionários, Sempre Alerta, Infernais e Terríveis. Nessa época passei a ser conhecido como “o menino de Nova Cruz”. Passaram a comentar que tinha um menino de Nova Cruz que cantava muito. Estreei no dia 29 de maio, na zona. Foi em Zeni Drink’s, em Morro Branco. A dona se chamava Inez. Ela colocou seu nome ao contrário: Zeni. Estreei cantando “Férias na Índia”. Depois disso, falei com Carlos Alberto e saí da rádio.
SUPERPAUTA – Quanto você ganhava para cantar nos Apaches?
FERNANDO LUIZ – Recebia 100 cruzeiros por mês. Virei um astro aos 16 anos. Todos tínhamos vindo do interior do estado. Eu era o mais novo da banda. Como andava de ônibus, vez por outra eu lia escrito no estofado das cadeiras: “Fernando Luiz dos Apaches, eu te amo”. Eu ficava louco com aquilo. Virei ídolo da periferia! A gente fazia mais sucesso nas Quintas e nas Rocas. Na Assen, a agitação também era grande. Depois passamos a tocar no ABC, onde hoje é o CCAB Norte. Para entrar no Quintas Clube, era uma loucura. A domingueira mais famosa era lá. Como terminava mais tarde, muitos músicos dos conjuntos iam pegar as menininhas na saída, para dar uma voltinha no quarteirão. Numa dessas, uma garota ficou grávida de mim. Foi perto de eu viajar para o Rio. Depois nos acertamos sobre esse assunto.
SUPERPAUTA – Você foi muito namorador?
FERNANDO LUIZ - Naquela época estava em evidência o movimento hippie. O Festival de Woodstock era muito comentado. Inspirado em Joe Cocker interpretando “With a Little Help From My Friends”, eu tirava a minha camisa e ficava só de colete, cantando nos Apaches. Logo eu que nunca fumei um baseado! Eu, como católico, tinha medo de duas coisas: maconha e de tirar a virgindade de uma menina. Ia à igreja todos os domingos e até comungava. Ainda lia a epístola na missa, que era transmitida pela Rádio Rural. Vivia num conflito. Às vezes achava que ia para o inferno, já que a Igreja me proibia de namorar, de beber... Como poderia ser um cantor desse jeito? Eu cumpria a parte da religião que mandava evitar a maconha e a bebida. Mas me vingava nas meninas: virei o cara mais namorador da época.
SUPERPAUTA – As bandas tinham repertório diferente? Algumas poderiam ser consideradas mais avançadas e outras mais populares? Vocês conviviam entre si?
FERNANDO LUIZ – Os músicos eram ligados uns com os outros, mas quando partia para o repertório, cada um tinha o seu estilo. O interessante é que naquela época eu abominava e detestava a música brega. Quando ouvia um disco de Jerry Adriani, eu torcia a cara. Para mim, era o suprassumo da pobreza musical. Na época dos festivais, nós cantávamos tudo: “Ando meio desligado”, “Alegria, alegria”, “Atrás do trio elétrico”... Nosso perfil era o de um grupo popular, que na época significava cantar The Beatles, Vinicius de Moraes... O mais básico que fazíamos era tocar Renato e seus Blue Caps e Os Incríveis.
SUPERPAUTA – Você cantava Beatles em inglês ou por meio de versões?
FERNANDO LUIZ – Eu cantava em “portinglês”, copiando a letra. Quando tinha que cantar em um lugar mais chique, a preocupação aumentava. Uma vez fui cantar “Where do I Begin (Love Story)” em um programa de rádio. Não deu para decorar a letra, então a copiei. Eu estava cantando, tudo ia bem. “Where do I begin / To tell a story of how great a love can be / The sweet love story that is older than the sea / The simple truth about the love she brings to me? / Where do I start?”. Até que veio um filho de uma mãe e tropeçou na estante onde a letra estava acomodada. O papel caiu no chão, longe de mim. Sendo ouvido pelo estado inteiro, comecei a inventar. “Laive suflai neston / Nesti instaigue espade estrongue love uêi”. (risos). Foi arretado!
SUPERPAUTA – Dê o exemplo de uma música considerada brega que você odiava.
FERNANDO LUIZ – Não existia brega, havia a música cafona. Uma das canções que eu detestava era “A beleza da rosa”. Outra era “Olhos feiticeiros”. Terrível! “Sorria, sorria” também me desagradava. Eu ficava louco, ouvindo isso, e sem entender como essa gente fazia tanto sucesso. Depois me apaixonei por esse mundo.
SUPERPAUTA – Wadick Soriano, para você, era brega ou romântico?
FERNANDO LUIZ – Waldick foi tema das serenatas que eu fazia para as minhas namoradas. Uma de suas músicas que eu cantava era “A carta”. Na minha infância, Waldick estava situado um patamar acima de Evaldo Braga. Mas, quando vim para Natal e fui fazer parte desse movimento moderno e dançante, passei a ter vergonha de dizer que um dia tinha gostado desse tipo de música. Passei a valorizar a minha imagem de cabeludo que usava macacão e era meio hippie e moderno. Deixei de lado Waldick, Núbia Lafayete, Carlos Alberto e um cara chamado Marco Antonio. Ele pisou em um fio elétrico, lá em Irajá, e morreu eletrocutado. Quando entrei nos Apaches, apagou uma página na minha vida. Morreu o intérprete de Waldick Soriano. A última referência romântica antes de entrar nos Apaches, foi “Aline”. “J'avais dessiné sur le sable / Son doux visage qui me souriait / Puis il a plu sur cette plage / Dans cet orage, elle a disparu”. Foi a última vez, inclusive, que cantei uma versão de Agnaldo Timóteo. “Ontem retornei / A areia / Branca e ardente / E em vão, te esperei / Ouvi teu riso / Que era um guizo / Que uma onda / Trouxe aos meus pés”.
SUPERPAUTA – O que você passou a curtir depois que entrou nos Apaches?
FERNANDO LUIZ - Comecei a ouvir, por exemplo, Jorge Ben. Em 1971, veio Tim Maia. Passei a cantar Paul McCartney. Tem um detalhe que quero registrar aqui: a maioria dos cantores de banda perde a sua identidade musical. Ele quer cantar parecido com o original. Como achava bonito o jeito de Tim Maia, algumas vezes eu cantava parecido com ele. Mas não costumava cantar parecido com ninguém, por isso consegui sair incólume dessa situação. Quando resolvi seguir carreira-solo, eu já sabia o que queria. Mas, a única unanimidade da época era Roberto Carlos. De A a Z. Ele tocava em cabaré, no aniversário de 15 anos, em todo lugar.
SUPERPAUTA – Até na igreja Católica...
FERNANDO LUIZ – “Jesus Cristo” foi uma loucura. Mas eu dizia que na época dos Apaches me identifiquei muito com o público jovem. Porém, quando fui trabalhar na Rádio Nordeste, no final de 1972, aconteceu algo interessante. No programa que eu tinha, só tocava Led Zeppelin, Emerson, Lake and Palmer... No máximo eu incluía versões das músicas dos The Fevers e canções de Caetano. Quis mudar o perfil da rádio e me lasquei. Quando o Ibope veio, meu programa deu traço. Era o programa com menos audiência. Como a emissora tinha outros programas na mesma situação, contratou um diretor artístico de Recife, Abérides Niceas. Fui fazer um programa à noite, o “Show das 20”. Ele proibiu que eu tocasse música internacional. Contra a minha vontade, comecei a tocar Evaldo Braga, Fernando Mendes, José Augusto... Os índices de audiência melhoraram. Nessa mesma época, em maio de 1973, a Phonogram realizou um festival de música no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, para promover seus artistas. Reuniu a nata da MPB: Caetano, Milton, Gil, Mutantes, Chico, Raul Seixas... Foi quando Caetano Veloso, que é o protetor dos bregueiros, botou Odair José para cantar com ele. Quando Odair começou os primeiros versos, recebeu uma vaia maior do mundo. Mas, ao final, os dois foram aplaudidos. A partir daí, comecei a me ligar mais na música popular.
SUPERPAUTA – Qual a importância de Caetano para a música brega? FERNANDO LUIZ – Em 1968, ele gravou “Coração de Mãe”, de Vicente Celestino, no “Panis et Circenses”. Quando voltou do exílio, em 1973, lançou um bolero no disco mais experimental de sua carreira, o “Araçá Azul”. A música foi “Tu Me Acostumbraste”. Aí ele já disse tudo. A música mais emocional, a que fala mais direto ao coração são os boleros latinos. Depois, ele ainda gravou “Sonhos”, de Peninha. Agindo assim, ele contribuiu para diminuir o preconceito contra a música considerada cafona.
SUPERPAUTA – Por que você foi para o Rio?
FERNANDO LUIZ – Em 1973, depois de ter deixado de prestar vestibular para Medicina durante dois anos, eu já não tinha mais como enganar a minha mãe. Filho único, era muito cobrado. E, na música, eu ganhava pouco. Também não ia mais às missas, o que deixou a minha mãe ainda mais invocada. Foi nesse cenário que comecei a pensar em ir embora. Eu sabia que não teria futuro no Rio cantando o repertório dos Apaches. Passei a assistir os programas de auditório e a sonhar com a história do cara que vence um concurso de calouros e faz sucesso. Na mesma época, um amigo que estava por lá – Daniel – disse que eu poderia ficar onde ele estava, em Bonsucesso. Eu também tinha uma namorada que o pai trabalhava na Rádio Carioca. Então, comecei a pensar: vou para o Rio me apresentar na “Buzina do Chacrinha”, se não vencer como calouro, vou sobreviver cantando nas boates. Se não der certo na noite, vou para a Rádio Carioca. Não dando certo na emissora, vou ser locutor de porta de loja... Quer dizer, eu não tinha nada de concreto, só o meu sonho.
SUPERPAUTA – Como você viabilizou sua ida para o Rio?
FERNANDO LUIZ – Carlos Alberto me deu o dinheiro da passagem. Peguei um ônibus e fui. Saí de Natal no dia 16 de dezembro, cheguei dia 19, só o bagaço. Fui para o Rio com duas músicas ensaiadas, uma delas era “Retalhos de Cetim”. Eu já tinha descoberto que queria ser um cantor romântico. Contribuiu para isso o sucesso de Paulo Sérgio com a música “Índia”, que ele tinha gravado na mesma época que Gal Costa, só que com uma produção bem mais barata. Paulo Sérgio arrebentou. O sucesso de Evaldo Braga também me fazia pensar que o meu caminho deveria ser aquele. Por outro lado, eu raciocinava: apesar de gostar de ler, não sou um intelectual, não tenho formação universitária, não posso cantar esse tipo de música mais intelectualizada. Para seguir carreira-solo eu tinha que fazer um trabalho popular.
SUPERPAUTA – Foi assim que você resolveu tentar a sorte no Chacrinha...
FERNANDO LUIZ - Me inscrevi no Chacrinha e, por sorte, na primeira participação fui escolhido o melhor da semana. Ganhei uma TV preto e branco. Para mim foi uma grande coisa, pois as pessoas passavam seis meses para conseguir uma chance de cantar. Iam e voltavam depois. Eu consegui ficar entre os cinco que se apresentaram e fui o melhor da semana, cantando “Mau Mau”, de Moacyr Franco. Depois voltei para a escolha do melhor do mês. Éramos quatro finalistas, um de cada semana. O prêmio era uma TV em cores, novidade na época, e o direito de disputar contra 11 concorrentes o título de “Calouro Exportação/73”. Voltei a cantar “Mau Mau”. Meu principal adversário era do Rio de Janeiro e tinha levado um caminhão cheio de pessoas, com faixas e cartazes, para apoiá-lo. Depois que seis jurados votaram, a disputa estava empatada em 3 a 3. O deputado Rubens Dourado escolheu o meu adversário. Político, ele não tinha mesmo como votar contra alguém de sua terra. Fui eliminado da “Buzina do Chacrinha”. Voltei para casa, arrasado. Eu morava em uma pensão lá em Bonsucesso, dormia num sofá-cama com Daniel, claro que um de costas pro outro, que eu não sou besta. (risos). Na segunda-feira, comecei a pensar em procurar emprego. Na quarta, enquanto assistia ao seriado Daniel Boone na televisão, entrou um comercial anunciando a “Buzina do Chacrinha”, mas com a minha imagem na chamada. “A volta de Fernando Luiz, o calouro injustiçado”. No dia seguinte chegou um telegrama da produção me convocando para comparecer urgente à TV Tupi. Houve uma nova disputa e eu venci. Chacrinha, malandramente, classificou os dois para a final do “Calouro Exportação”.
SUPERPAUTA – Qual música você cantou nessa nova disputa?
FERNANDO LUIZ – Em todas as etapas cantei a mesma música, “Mau Mau”. Inclusive, depois que fui escolhido o melhor do mês, Chacrinha mandou me chamar em seu camarim. Depois de ter perguntado de onde eu era, ele falou que eu tinha chance de vencer o concurso e recomendou que eu não mudasse a música. Com a vitória, comecei a me achar importante. Os vizinhos lá de Bonsucesso já me reconheciam como “o menino do Chacrinha”. Na final, quando Aracy de Almeida foi dar o seu voto, ela descascou: “isso aqui é um festival de desafinação e o pior é esse aí de Natal”. Chacrinha ficou invocado, até porque tinha saído propaganda de página inteira em “O Dia”, com foto dele e a frase: “Aqui estão os melhores calouros do Brasil”. E Aracy disse que era um festival de desafinação. Tenho esse áudio no CD, ela ofendendo a todos. Chacrinha chamou o trombonista Pedrotti, que tocava com Elza Soares, e disse pra mim, “cante aí, meu filho”. Cantei, acompanhado apenas por Pedrotti. Depois, o Velho Guerreiro perguntou a cada um se eu desafinava. Todos disseram que não. Pediu também a opinião do maestro Aloir Mendes. Ele respondeu que eu era um dos melhores candidatos que tinham passado pelo programa até aquela data. Chacrinha adiou a escolha do “Calouro Exportação/73” para a semana seguinte.
SUPERPAUTA – E Aracy de Almeida?
FERNANDO LUIZ - Levou um esculacho do Chacrinha e foi retirada do júri do programa. No dia 10 de fevereiro de 1973 – com Gilliard, Carlos Alberto e outros cinco amigos que moravam no Rio torcendo a meu favor – voltei a cantar “Mau Mau”, na “Buzina do Chacrinha”. Fui escolhido o “Calouro Exportação/73”. Foi uma loucura! O prêmio era um fusca zero quilômetro. Na hora em que foi anunciá-lo, Chacrinha pediu para eu dividi-lo com o segundo colocado. Fazer o que? Dividi e levei 9 mil cruzeiros para casa. Com o dinheiro, comprei uma TV em cores e dei para dona Hilda, a proprietária da pensão onde eu morava. Mandei uma parte para a minha mãe e depositei 6 mil no banco. A situação melhorou um pouco, mas passei a procurar trabalho na noite. Foi aí que percebi o quanto eu estava despreparado. Além de não ter repertório adequado, eu era motivo de ciúme, por ter sido eleito o melhor calouro do Brasil. Nessa época conheci Sidney Magal, Alcione e Elymar Santos, que imitava Maria Bethânia cantando todo de branco. Como era difícil conseguir lugar para trabalhar, o tempo foi passando, o dinheiro acabando e voltei a enfrentar dificuldades.
SUPERPAUTA – E a gravação de um compacto pela Copacabana, um dos prêmios do “Calouro Exportação”?
FERNANDO LUIZ – Fazia parte do prêmio assinar contrato com a Copacabana. Mas, antes disso, vim passar 15 dias em Natal, convidado por Carlos Alberto para uma temporada de shows. Terminei ficando 45 dias. Nesse ínterim, Chacrinha brigou com a Tupi e deixou a emissora, perdendo também a influência que tinha na Copacabana. E eu perdi a chance de gravar o compacto. Em compensação, fiz muitos shows no Rio Grande do Norte e conheci o governador Cortez Pereira. Ele me recebeu no Palácio e me tratou muito bem. Nesse período participei da gravação do disco “Reencontro”, no qual cantei uma música de Nélson Freire e outra de Napoleão Veras. O governador me convidou para retornar em janeiro de 1975, para a festa do “Reencontro”.
SUPERPAUTA – Passado esse período em Natal, como foi a volta ao Rio?
FERNANDO LUIZ - Passei o resto do ano batalhando na noite, mas sem conseguir me firmar. O meu repertório era romântico normal, não dava para competir com os grandes artistas performáticos da época. A Alcione, por exemplo, cantava tocando trompete. Sidney Magal já tinha toda uma experiência de ter passado pela Europa. Elymar Santos tinha uma produção valorizando suas apresentações naqueles cabarezinhos da Lapa. Tinha um cara chamado Edson Leite que cantava em várias vozes. Tinha também os travestis... Os imitadores – como os clones de Evaldo Braga, José Augusto e Roberto Carlos – também faziam sucesso. Sem falar nos grandes intérpretes. Eu era apenas um cantor mediano: afinado e tudo, mas não tinha performance.
SUPERPAUTA – Como você conseguiu sobreviver diante de tamanha competição?
FERNANDO LUIZ - O dinheiro começou a acabar, e no ano seguinte eu não tinha mais nem onde morar. Fui dividir apartamento com um amigo em Copacabana. Quando não tinha mais sapato, ganhei um coturno da Polícia, dado por um amigo. Às vezes nem tinha o que comer. Eu ficava em Copacabana, sem grana, olhando as pessoas passarem. Pegava minha carteira da Ordem dos Músicos e ia pedir dinheiro nas esquinas. Foi um período terrível, o pior da minha vida. Só melhorou em 1975, quando vim fazer os shows a convite de Cortez Pereira. Além de ganhar uma grana, tive a felicidade de conviver com artistas como Luiz Gonzaga, Ademilde Fonseca, Paulo Tito e Trio Irakitan. Percorri com eles todo o estado, fazendo shows pelo projeto “Reencontro”. Depois disso, ainda cantei nas inaugurações da Cidade da Criança, do Bosque dos Namorados, do asfalto da Bernardo Vieira e das vilas rurais em Serra do Mel. Cortez Pereira foi o governador que mais deu atenção aos artistas, independente do estilo.
SUPERPAUTA – Feito esse trabalho no estado, você voltou outra vez para o Rio...
FERNANDO LUIZ – Sim. Como não deu certo o compacto na Copacabana, fui contratado pela Tapecar. Lá gravei um disco que só vendeu 50 cópias. As coisas foram piorando até que, em 1976, não aguentei mais. Minha grana acabou, não tinha trabalho. A gota d’água foi o dia em que saí para procurar uma boate pra cantar. Entrei em uma, na Praça Tiradentes. Lá encontrei um cara do “Impacto Cinco”, que estava tocando na noite. Tinha umas 15 pessoas. Fiquei esperando o dono da boate. Foi quando começou a tocar aquela música “All by myself”. Eu estava com uma fome maior do mundo e uma das meninas da casa estava bêbada, dançando no meio do salão. Toda vez que ouço essa música, lembro-me da cena. Não consegui emprego na boate e saí a pé para a Lapa. Quando eu não conseguia nada, costumava ir para a última boate. Eu dava uma canja e esperava para jantar. Cheguei às quatro da manhã. Em instantes iam servir a ceia. Na hora que botei um prato - a minha única refeição do dia - estava tocando uma música cantada por Roberto Carlos, “Eu me recordo”. Nessa noite decidi mudar. Logo em seguida, encontrei um amigo, Rui Ricardo, que hoje é do cerimonial da Assembleia. Ele me levou para a Abril Cultural, no Rio. Lá, me organizei: aluguei um apartamento, comprei um carrinho...
SUPERPAUTA – Quanto tempo você passou na Abril? Como foi a experiência?
FERNANDO LUIZ - Fiquei quatro anos. Eu já tinha casado com Cheilha e Stefenson já tinha nascido. Arranjei o emprego na Abril, em 1976. Minha vida se normalizou. Eu cantava na noite esporadicamente e, às vezes, até sem cachê. Até que, em 1979, surgiu outra oportunidade quando Chacrinha lançou o concurso de “O melhor intérprete de Roberto Carlos”. Só para tirar onda, me inscrevi. Mas, depois que ganhei as duas primeiras fases, me animei. Na semifinal fui para São Paulo, de ônibus, cantar “Como vai você”. O concorrente tinha escolhido “Força estranha”. Na hora da votação do melhor, Cinira Arruda deu seu veredito: “vou ficar com o rapaz do Rio Grande do Norte porque ele canta muito e também porque essa música de Antonio Marcos é um clássico...”. Aí Chacrinha falou: “Mas não é de Antonio Marcos, é de Roberto Carlos”. Ela insistiu que Roberto Carlos interpretava, mas a composição era mesmo de Antonio Marcos. “Está desclassificado”, disse Chacrinha, apontando para mim. “A música tem que ser cantada e de autoria de Roberto Carlos”. O programa era transmitido ao vivo. Tive uma reação decisiva: aproximei-me do microfone e argumentei: “mas o outro candidato cantou “Força Estranha”, que é de Caetano Veloso”. (risos).
SUPERPAUTA – Qual a reação de Chacrinha?
FERNANDO LUIZ – Ele quis desclassificar os dois, mas resolveu marcar outra data para uma nova disputa. Voltei para o Rio e, na Urca, descobri o fotógrafo do Chacrinha, Delgado. Mandei fazer 200 fotos preto e branco pequenininhas. Fiz também umas vinte cópias da letra da música que eu tinha escolhido para cantar, “Os seus Botões”. No dia da apresentação, peguei o ônibus às seis da manhã, no Rio, e cheguei às onze, em São Paulo. Tinha um carro da produção para levar para o ensaio, marcado para às 16 horas. As filas começavam a se formar na porta do teatro às duas e meia da tarde, três horas. Depois que ensaiei, peguei a bolsa onde eu levava as fotos e as letras mimeografadas e fui até a fila, cheia de empregadas domésticas, do povão. Para cada uma delas eu me apresentava e dizia que ia cantar no Chacrinha. Ao final, oferecia uma foto de lembrança. Autografava, entregava e pedia uma força. Geralmente as pessoas eram do Norte e do Nordeste. Fiz corpo a corpo igual a político. Na minha vez de cantar, quando comecei “Os botões da blusa que você usava...” ouvi alguns aplausos espontâneos. No segundo verso - “E meio confusa desabotoava” - uma moça levantou a foto e, em seguida, as outras levantaram também. De repente começou o coro: “já ganhou, já ganhou”. O júri não teve nem o que pensar duas vezes. Ganhar o prêmio de “O Melhor intérprete de Roberto Carlos” me fez voltar a cantar.
SUPERPAUTA – Como era a sua relação com as chacretes?
FERNANDO LUIZ – Naquela época, as chacretes e as mulatas de Sargentelli eram o sonho de consumo sensual de todo homem. Mas, no programa botavam moral. Pude me aproximar delas em viagens que fiz pelo interior para cantar em shows que o Chacrinha vendia para prefeituras. Certa vez eu estava lá atrás, entretido com uma revista Seleções. Foi quando uma das chacretes sentou perto de mim. Conversa vai, conversa vem, ela pediu para encostar a cabeça em meu ombro. Dali em diante foi um festival de contorcionismo no banco do ônibus...
SUPERPAUTA – Como funcionava a questão do jabá?
FERNANDO LUIZ – O jabá daquela época era diferente desse jabá mais mercantilista que parece existir hoje, de pagar para tocar determinado artista. O que acontecia era uma negociação com as gravadoras. A “Rádio Povo”, por exemplo, fazia uma programação de aniversário e botava 20 mil pessoas no ginásio Paulo Sarasate. As gravadoras mandavam os artistas de graça, embora a emissora cobrasse ingressos. Em troca, a rádio tocava os discos desses cantores na programação. Era um jabá oficial. Hoje é muito diferente: se paga antecipado para transformar uma porcaria em sucesso. Antigamente não era assim. Para fazer sucesso, o artista popular tinha que ir às gafieiras, aos programas de audiência popular. Os divulgadores percorriam as rádios. Meninas eram contratadas para telefonar para as rádios pedindo determinada música. Um bom dinheiro era gasto em ficha telefônica. Além disso, tinha o sucesso espontâneo, como foi o de Carlos Alexandre. Hoje essa possibilidade não existe mais.
SUPERPAUTA – Carlos Alexandre foi um sucesso espontâneo?
FERNANDO LUIZ – Faz 25 anos que ele morreu e continua mais vivo do que muito artista de nossa época. Só não é referência maior porque o Rio Grande do Norte não teve força para transformá-lo em um ícone. Como artista, Carlos Alexandre foi muito mais criativo e autêntico do que, por exemplo, Reginaldo Rossi. Carlos Alexandre cantava com naturalidade. Seu sucesso veio quase que por acaso. Já Reginaldo era inteligente e estrategista. Para se ter uma ideia de sua perspicácia, Reginaldo Rossi incorporou nada menos do que o cantor mais cafona do mundo: Elvis Presley. Ele também quebrou o tabu do chifre. Odair José dizia que alguns homens sentem vergonha de assumir que são cornos. Quando são traídos, vão para a cobertura e ouvem todas as músicas consideradas ruins, tomando um litro de uísque. Quando descobrem a traição, nem comentam com a mulher, para tudo ficar na mesma. Reginaldo quebrou esta escrita: disse que gostava de ser corno. Quebrou um paradigma. Ele foi um artista caricato, no bom sentido. Foi um performático do brega. Carlos Alexandre era verdadeiro. Até no dia-a-dia ele se vestia como nos shows: calça estampada e camisa quadriculada. Gostava de se apresentar com ternos rosa nos programas de televisão. Eu achava horroroso. A sua performance não era pensada.
SUPERPAUTA – Waldick Soriano e Agnaldo Timóteo não gostam de ser classificados como bregas. Eles se auto-intitulam cantores românticos. Já Fernando Mendes, Bartô Galeno e Carlos Alexandre se diziam bregas. Quando você se assumiu um cantor brega? Foi difícil?
FERNANDO LUIZ – Depois de toda a experiência na TV, de cantar em boates e nos inferninhos e de descobrir que não me interessava ser um artista erudito - pois eu não tinha um conhecimento profundo para aquilo - decidi que seria um cantor romântico popular. A palavra “brega” só começou a existir com esse significado no início dos anos 1980. Até então, o termo usado era “cafona”. Não tenho problema com relação a ser chamado de brega.
SUPERPAUTA – Foi difícil deixar a Abril para voltar a cantar?
FERNANDO LUIZ – Em 1980, eu estava satisfeito com a minha vidinha de vendedor de livros. Viajava o país quase todo, tinha um salário razoável e meus dois filhos já tinham nascido: Stefenson e Fernanda. Foi quando Carlos Alberto – que havia levado Carlos Alexandre e Gilliard para a gravadora RGE – me convidou a voltar a cantar. Respondi que estava me apresentando, cantando na noite. Mas a sugestão dele era para eu voltar a viver exclusivamente da música. Perguntou se eu queria ir para a RGE. Respondi que sim. Ele estava abrindo um jornal em Natal, chamado “Folha da Manhã”. Me convidou para ser o diretor comercial. Eu passaria um período trabalhando no jornal e depois ele me levaria para a RGE. Mudamos para Natal. Trabalhei no jornal dele: fui vendedor, escrevi matérias, fiz de tudo. O jornal, que era semanal, não sobreviveu. Quando quebrou, pedi demissão. Estava disposto a voltar para o Rio de Janeiro quando encontrei Osvaldo Garcia, que era deputado e compositor. Cantei uma música minha para ele: “Você fez de mim um Poeta”. Osvaldo ficou louco por ela e prometeu pagar um disco para mim. Entrou em contato com Maurílio Costa – compositor de grandes sucessos de Carlos Alexandre – e acertou para eu gravar um compacto. Mas, quando Maurílio ouviu a música, disse que não tinha nada a ver, que nem a minha família ia comprar. “Você com essa cara de galã tem que cantar é música de brega”. Fui para Recife, lá Maurílio produziu o disco com duas músicas: “Onde ela está” e “Padre... pare o casamento”. São duas canções bregas ao extremo.
SUPERPAUTA – Qual a repercussão desse disco?
FERNANDO LUIZ - Peguei a gravação e fui para o Rio de Janeiro, de ônibus – Osvaldo me deu a passagem. Depois de peregrinar por algumas gravadoras, encontrei como chefe do departamento de divulgação da Odeon um ex-assistente de produção do Chacrinha, Ricardo Silveira. Ele gostou do tape e me apresentou a Miguel, do “The Fevers”. Muito sisudo, Miguel – que tinha lançado José Augusto e Fernando Mendes – disse que lançaria um disco meu para concorrer com Carlos Alexandre. Mandou-me voltar para Natal e preparar um repertório para lançar um elepê em um ano. Enquanto isso, sairia o compacto com as duas músicas. Saiu o disquinho e pela primeira vez na vida recebi tratamento de astro. Fiz até uma sessão de fotos no Parque da Cidade, com o fotógrafo Amicucci Gallo. No dia seguinte, ele pediu para fazer outras fotos, pois não tinha gostado do resultado. Amicucci me deu os negativos que não serviram. Dois meses depois saiu o compacto. Fui divulgar o disco em Recife, João Pessoa, Natal, Mossoró e Campina Grande. Cantei em cabine de parque de diversão, andei em cima de caminhão, divulguei em todo o lugar que foi possível. O resultado é que foram vendidas 1.680 cópias. Comparando com o primeiro, que vendeu apenas 50, já foi alguma coisa.
SUPERPAUTA – Foi nessa época que você voltou a trabalhar em rádio?
FERNANDO LUIZ – Sim, comecei a trabalhar na Rádio Trairi. Foi também quando descobri o circo. Passei por cada situação... Algumas vezes cantei sem microfone ou acompanhamento. Em outras, embaixo de chuva. Teve ocasiões de, antes de me apresentar, eu ficar sentado em um tamborete vigiando a cerca para evitar de os meninos entrarem por ali, sem pagar. Convivi com muitos personagens interessantes no circo, como Facilita, Carretinha, Polegada, Serenata e Bolachinha. Como o compacto fez sucesso, mudei o perfil definitivamente para o universo brega e passei a compor nesse estilo. Foi nessa época que compus “Garotinha”, mas não gravei. Guardei. No ano seguinte, quando eu já me preparava para voltar ao Rio onde gravaria o prometido elepê, a Odeon me dispensou. Miguel tinha saído e ido para a RCA Victor. Fiquei num mato sem cachorro, morando em uma casa alugada no Alecrim e cantando em circo. Sorte que meu programa na rádio, chamado “Geração Colorida”, tinha boa audiência. Certo dia, eu estava na rádio quando chegou um diretor da Gravasom, de Belém do Pará, para divulgar o elepê de Ari Santos, irmão de Carlos Santos. Depois de ouvir meu compacto na discoteca da emissora, ele perguntou se eu queria gravar um elepê com a Gravasom. Topei e ele me mandou preparar o repertório.
SUPERPAUTA – Além de “Garotinha”, você tinha outras músicas prontas?
FERNANDO LUIZ – Tinha umas oito músicas, entre elas “Garotinha”, “Fique comigo” e “Saudade Machucante”. Quando completei as dez, enviei para Alípio Martins, que era produtor musical da Gravasom. Ele só aprovou três e completou com outras canções suas. Fui para Belém e gravei meu primeiro elepê. Quando cheguei à cidade, não tinha dinheiro para pegar o táxi até o hotel, nem havia ninguém me esperando. Fiquei observando: quando apareceu um médico que pagou a corrida até o Centro da cidade, disse a ele que era músico, que tinha sido roubado e pedi uma carona. Fui com ele. Comecei a gravar o disco: segunda, terça... Na quarta-feira botei a voz guia. Tive que antecipar a gravação porque Carlos Santos ia precisar do estúdio. Voltei para Natal com o disco pela metade, faltando eles completarem os arranjos. Um detalhe é que na Gravasom o artista tinha que fazer a sua capa, inclusive contratar fotógrafo. Lembrei dos negativos de dois anos antes e mandei pra lá. Assinei contrato de quatro anos. Em setembro, meu disco saiu, depois de 15 anos de batalha. Não existe emoção igual! Eu estava em casa quando ouvi alguém me chamar, na calçada. Era Ivanaldo, o divulgador da Gravasom. Quando abri a porta, lá estava ele com a capa do meu elepê. Nessa noite não dormi. Fiquei deitado, olhando para a capa do disco. Eu nem podia ouvi-lo, porque não tinha vitrola em casa. Resolvi zapear, no rádio. Sintonizei a Rádio Marajoara: “vamos ouvir agora o novo lançamento da Gravasom”. E tocou uma música de Carlos Santos, o dono da gravadora. Pouco tempo depois: “agora o novo contratado da Gravasom, Fernando Luiz”. Tocou a música “Vou voltar pro meu amor”, que foi o título do disco.
SUPERPAUTA – Não foi “Garotinha”?
FERNANDO LUIZ – Não. Inclusive, “Garotinha” passou a ser a música de trabalho por causa da rádio Verdes Mares. Naquela mesma noite, quase uma hora depois de eu ouvir uma música minha na Rádio Marajoara, a Verdes Mares tocou “o novo contratado da Gravasom, o cantor potiguar Fernando Luiz”. Um mês depois eu tinha vendido 9 mil elepês. Pedi licença da Rádio Trairi e fui cuidar da divulgação. Aí já tinha passagem de avião, hotel duas estrelas (que pra mim já era bom demais), divulgador à disposição e táxi no aeroporto. Como eu vinha de rádio e já tinha passado pela noite, tinha facilidade de fazer a divulgação. Além disso, minha formação cultural era diferenciada, se comparada aos grandes artistas do gênero brega. O papo deles não rendia muito. Eu chegava às rádios e emissoras de TV e respeitava as pessoas, não era metido a garanhão, diferente de outros artistas. Era respeitado também por isso. Nas entrevistas, começaram a perceber que meu papo era outro. O problema é que a minha gravadora não investia.
SUPERPAUTA – Você se preparou para o fim do sucesso?
FERNANDO LUIZ – Eu sabia que todo artista tem uma fase de sucesso. Zé do Foto, um analfabeto de Recife, certa vez me disse para eu tomar cuidado, porque todos os cantores passam um dia. Eu, Carlos Alexandre e José Augusto seríamos sucesso temporariamente. Na sua visão, só havia três pessoas que ninguém esqueceria nunca: Roberto Carlos, Luiz Gonzaga e Frei Damião. É uma sabedoria da porra! Lógico que ele não conhecia outros ícones como Gilberto Gil e Caetano, mas eu entendi que era um artista regional, sabia que o forró-brega e a lambada iam passar.
SUPERPAUTA – Musicalmente, o Rio Grande do Norte tem uma ligação muito forte com a música brega ou cafona. Porém, a mídia parece não dar tanto espaço aos artistas desta tendência. Você concorda com esta tese?
FERNANDO LUIZ – A questão é mais séria ainda: o Rio Grande do Norte perdeu a oportunidade de ser a referência para o Brasil da música romântica. Vejamos o exemplo de Pernambuco, que é a terra do frevo e da cultura popular que engloba vários estilos e artistas de respeito. Na Bahia, apesar de alguns artistas se digladiarem nos bastidores por não aceitarem muito o “axé music”, na frente do público eles se beijam. No Ceará, o forte é a vertente do humor e do forró. O RN poderia hoje ser uma referência na música romântica. Nosso estado deu o Trio Irakitan - que durante 30 anos foi considerado o segundo trio mais famoso do mundo. Deu também Núbia Lafayete. Carlos Alexandre é um ícone da música popular-romântica. Estes três são top de linha. Num segundo plano temos Gilliard, Bartô Galeno, Carlos André, Gilson... Se o potiguar não fosse tão subserviente ao que vem de fora, se aqui não houvesse uma elite tão metida a besta, esses artistas poderiam ter fortalecido outros gêneros musicais e artistas do estado. Reginaldo Rossi era reverenciado em Pernambuco. Aqui os artistas românticos se sentem desprezados. Eles não se sentem estimulados para lá fora sequer citar o estado como referência. Elino Julião, por exemplo, foi tão discriminado aqui como cantor de forró que mudou seu estilo para o brega. Como não foi feliz nessa mudança radical - só conseguiu relativo sucesso com “Cofrinho do Amor” – depois teve que voltar pro forró. Se não fosse resgatado por aquele trabalho que Candinha Bezerra fez, talvez hoje ninguém soubesse quem ele foi. Temos agora o Arnaldo Farias, o melhor improvisador de “no calor da vaquejada”. O preconceito é forte, os artistas mal se conhecem. Em Recife é impressionante como os artistas de diversos estilos se respeitam uns aos outros.
SUPERPAUTA – Você foi vítima de discriminação por seu estilo musical?
FERNANDO LUIZ - Tem uma coisa mais grave ainda: os próprios colegas populares desprezam os artistas populares. Mas eu fui discriminado demais! Certa ocasião, fui participar de uma reunião na Capitania das Artes. Um artista famoso, quando me viu, virou o rosto para o outro lado. Alguns fingem que não me conhecem. Hoje a discriminação é menor porque me respeitam pelo trabalho que faço na televisão e pelos projetos sociais. Mas eu não guardo mágoa. Só lamento que, com essa desunião, quem mais perde é o estado, que fica fraco e sem referência. O estado realmente não trata bem quem poderia representá-lo. Outro dia a minha filha Fernanda, no auge do seu sucesso como “top model”, veio até Genipabu fazer umas fotos para a revista Caras. O fotógrafo foi proibido de subir as dunas com seu equipamento profissional. Foi obrigado a fazer o seu trabalho com uma câmera amadora! Dez dias depois Fernanda estava na capa da Caras, divulgando Natal para todo o mundo.
SUPERPAUTA – Fernanda Tavares deu um upgrade na sua carreira?
FERNANDO LUIZ - Tive que administrar esse lado muito bem, porque nunca quis isso. Do contrário eu ia pegar a minha história toda de 40 anos e me transformar em um papagaio de pirata de Fernanda. Sempre fiz questão de não atrelar o meu nome ao dela, e minha filha entende isso. Certa vez, meu genro, Murilo Rosa, falou sobre mim no Programa do Faustão. “Fernando Luiz arrebenta em Natal”. Bastou ele dizer isso para, na mesma hora, meu telefone começar a tocar. Mas eu não quero isso, porque não faz sentido. Foi diferente do dia em que ela estava fazendo um ensaio fotográfico em Miami, durante um evento que reuniu vários artistas latinos. Lá para as tantas, um dos organizadores a viu escutando uma música minha, o “Melô do bum-bum”. Ele perguntou quem era e pediu para ouvir. Quando soube que o cantor era o pai da Fernanda, ele disse que me queria no encontro. Peguei um avião e fui para Miami. Lá estavam Shakira, Enrique Iglesias e José Feliciano, entre outros artistas, além de várias modelos famosas da época. Quando me viam, perguntavam naquela língua enrolada: “Bossa nova?” Eu respondia, também enrolando a língua: “não, brega”. (risos). Quando fui cantar, comecei com “Garotinha”. Depois, quando estava cantando “Melô do bum-bum”, ouvi lá no fundo alguém cantar “La bamba”. Era José Feliciano! No final, me deram um violão e fui chamado para encerrar esse desfile. Resumo da história: fui porque era pai de Fernanda, mas saí de lá como um cantor.
SUPERPAUTA – Seu livro “Vida de Artista” é uma autobiografia muito séria e honesta. Como se fosse uma autobiografia não autorizada. Você não acha que se expôs muito?
FERNANDO LUIZ – Estou gravando um CD chamado “Canções Fraternas, volume 2”. São músicas inspiradas no Evangelho. Sou espírita. Todo mês faço palestras. Quando chego nesses lugares, faço questão de mostrar quem eu sou. Sou uma pessoa normal: não sou ladrão, nem corrupto, nem assassino. Se tivesse cometido excessos que são naturais do meio artístico, eu diria tranquilamente. Se eu tivesse me envolvido com drogas ou álcool, teria dito. Vim tomar uísque depois dos 40 anos de idade. O que me ajudou a evitar isso foi a formação tradicional e careta da Igreja Católica, que me acompanhou até os 25 anos de idade. Por isso fiz questão de não esconder nada no livro
SUPERPAUTA – Você virou espírita depois de enfrentar um processo de depressão. Como foi?
FERNANDO LUIZ – É a pior coisa do mundo, não desejo a ninguém. Passei três meses, foi como uma morte. Eu não transava com a minha mulher, tinha medo de ficar sozinho, não saía de casa... Rapaz, foi terrível! Quando ganhei o concurso de “O Melhor intérprete de Roberto Carlos” tive também uma experiência incomum. Alguns até não acreditam. Pouco tempo antes de eu participar da final do concurso, fui operado em Três Pontas (MG) de uma apendicite supurada. Depois da operação, deu uma inflamação chamada abscesso de parede e o médico teve que abrir a cirurgia. Disseram que não ia dar tempo para eu participar do concurso, pois demoraria mais de dois meses para a ferida cicatrizar. Ironicamente, no dia 10 de fevereiro de 1974 fui escolhido “Calouro Exportação” no programa do Chacrinha. Cinco anos depois, no dia 10 de fevereiro de 1979, fui operado dessa apendicite. Em abril ia ser a final de “O Melhor intérprete de Roberto Carlos”. Quando saí da clínica para continuar o tratamento em casa, tinha uma Kombi parada na porta, tocando “Como vai você”, a música que eu ia escolher para tocar na final. Naquele instante eu disse a mim mesmo que ficaria curado a tempo. Uns acham que foi auto-hipnose, outros que foi a força da mente. Tem também quem acredite que foi uma cura espiritual. O certo é que, a partir daquele dia, todas as vezes em que fui fazer o curativo entrei em um processo de concentração. Eu rezava e entrava em um processo tão grande de conscientização interior, que no quinto curativo a enfermeira tinha que bater no meu braço para avisar que tinha terminado o seu trabalho. Quando faltavam nove dias para a final, a ferida estava cicatrizada. Resultado: fui lá e ganhei o prêmio. A partir daí comecei a abrir a minha mente e a ler obras de Martin Luther King, Chico Xavier...
SUPERPAUTA – Carlos Alexandre também teria contribuído para a sua conversão ao espiritismo...

FERNANDO LUIZ – A minha mulher, Joelma, é médium. Quando Carlos Alexandre morreu, eu estava na Paraíba para shows em Souza e Pombal. Soube da morte quando cheguei em Catolé do Rocha. Algum tempo depois, minha mulher estava deitada na nossa casa. Eu estava fora, fazendo algum show. Ela sentiu a presença de Carlos Alexandre, como se ele tivesse sentado na cama. Quando minha mulher abriu os olhos, ele a chamou e atravessou um pergolado. Ela tentou passar também, mas bateu com o rosto no pergolado. Ficou muito assombrada com aquilo. Fomos ao Centro Espírita Waldemar Matoso procurar explicações para o fenômeno. Isso foi em 1990, a partir daí comecei a conhecer a doutrina espírita. Gostei: ela não proíbe nada, não critica ninguém... Saí com várias mulheres, fiz e aconteci. Mas a Bíblia diz que Salomão teve mil mulheres. Davi mandou um cara ir para a guerra para ficar com a mulher dele. E por aí vai. Comecei a encontrar explicações...
SUPERPAUTA – A música “Garotinha” foi feita para a sua mulher?
FENANDO LUIZ – Certa vez fui fazer um piquenique e passei em uma casa que tinha uma menina na janela. A beleza dela me marcou, mas esqueci. Quando Taiguara fez uma música tipo a menina da janela, lembrei. “Garotinha” fala no interior, na roça, naquela casinha, tudo muito meio bucólico... As mensagens são muito simples. “Garotinha” não foi feita pra ninguém. Entretanto, em 1986 eu estava fazendo um show político em Mossoró quando vi aquela menininha lá no meio da multidão. Eu, com 34 anos, ela com 14. Hoje sou casado com Joelma e temos duas filhas. Tudo o que a letra diz, gravada dois anos antes, aconteceu em 1986. Virou uma música profética. Considero que a fiz para a minha esposa.
SUPERPAUTA – Como alguém que tem interesse em conhecer sua história mais detalhadamente pode adquirir o seu livro?
FERNANDO LUIZ – Por eu ser um artista brega e um cantor popular, alguns intelectuais - excluindo os que têm interesse nesse segmento musical e aqueles com visão mais ampla - não vão achar que o livro merece ser lido. Algumas pessoas que não se identificam com meu estilo podem não acreditar que eu possa fazer uma narrativa sincera e, modéstia a parte, agradável de ler. Existe essa dificuldade de as pessoas formadoras de opinião conhecerem o meu trabalho. O livro só está à venda em dois lugares: na Nobel da Salgado Filho e na Banca Cidade do Sol, do Tota, lá na Afonso Pena, perto do CCAB Norte. Minha mulher até diz que sou muito xiita. Depois que li no jornal que uma livraria da cidade não estava expondo as obras dos artistas da terra na sua vitrine, desisti de deixar meu livro lá. Essa primeira tiragem foi de mil exemplares. Tenho uns 30 ou 40 em casa.
SUPERPAUTA – O que você está fazendo agora?
FERNANDO LUIZ - Estou preparando um novo DVD e continuo fazendo shows. Diminuí a intensidade das apresentações por conta do meu programa de televisão e dos meus projetos sociais. Um próximo livro também está aprovado pela lei de incentivo a cultura. Não sei como vai ser, porque não poderei vender. Vai se chamar “A arte de Pés Descalços”. É a história do meu show das comunidades. Fiz cerca de 80 shows ao longo de dez anos. Atravessou três administrações estaduais e municipais. É um projeto cultural de grande alcance social. O livro conta desde o começo, em 2000, até os dias atuais. Outro que estou preparando – por conta própria – reúne textos da coluna que escrevo toda semana no Jornal Metropolitano. Já tenho cerca de 150 artigos. Fiz uma seleção e estou lançando um livro chamado “Com a boca no trombone”. Todos esses artigos são críticos e atuais.
SUPERPAUTA – Se Natal reconhecesse os seus artistas, como você gostaria de ser reconhecido?

FERNANDO LUIZ – Como um cantor popular que ama Natal e que tem mais do que a vontade de ser um cantor de sucesso: tem o desejo de que os artistas daqui sejam reconhecidos. Obviamente alguém vai lembrar-se de mim como o autor de “Garotinha”, como o pai de Fernanda Tavares. Mas quero também ser lembrado como o artista que dedicou parte de sua vida aos outros artistas. Se eu for reconhecido pelo público, não precisa nem o poder público me reconhecer. O público é a maior comenda. 

5 comentários:

  1. Roberto, amei a entrevista. Ela me deu a oportunidade de conhecer a vida artística de Fernando Luiz. Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Grande Fernando Luiz! Sinceridade e solidariedade meu amigo tem de sobra. Parabéns pela entrevista.

    ResponderExcluir
  3. Roberto, faz uma entrevista com o cantor Casé Henrique. Ele tem muitas histórias pra contar.
    Seu contato é: https://www.facebook.com/cantorrcasehenrique. Grande abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir
    2. Olá, me desculpe qualquer impertinência; Mas seria você parente do inestimável e saudoso médico cirurgião e poeta baiano Henrique do Rio, falecido em meados de 2008 ou 2009 em Armação dos Búzios - RJ?

      Grato.

      Abaixo deixo o meu contato no Facebook:
      https://www.facebook.com/profile.php?id=100013375744496

      Excluir