sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Entrevista: Peter Pan


VIVENDO NA TERRA DO NUNCA


Em uma tarde de novembro de 2014, ao final de mais um dia de trabalho, me reuni com Emmanuel Manollo (designer e DJ) e o “grego” Nicolas Gomes (repórter fotográfico, guitarrista e videomaker) para entrevistar o paulista João Antônio Simões dos Santos, que se autointitula Peter Pan. Da mesma forma que o personagem criado pelo escocês James Matthew Barrie, João Antônio parece ter se recusado a crescer e a assumir as responsabilidades típicas de uma vida adulta. Ele aparenta preferir continuar vivendo em sua própria Terra do Nunca. Porém, sua vida nunca foi maravilhosa como a história que ganhou o mundo depois da adaptação para cinema feita pelos estúdios de Walt Disney. Ao contrário dos sonhos e aventuras, o Peter Pan que nasceu em Angatuba – e completa 59 anos em março – experimentou sofrimento, necessidade e abandono. Apesar de sobreviver nas ruas, pode-se considerar que João Antônio tem uma faceta que pode até ser considerada heroica. A princípio frequentando bibliotecas em São Paulo e depois recolhendo livros descartados por outras pessoas, ele construiu uma bagagem cultural surpreendente. Ávido leitor e dotado de raciocínio ágil, ele não se furtou a esgrimir golpes verbais afiados como respostas a perguntas com as quais não simpatizou. Convido vocês a conhecerem um pouco do que Peter Pan tem a dizer. (Roberto Homem - robertohomem@gmail.com)
  
SUPERPAUTA – Você é conhecido por qual nome?
PETER PAN – Peter Pan.
SUPERPAUTA – O que você faz da vida?
PETER PAN – Costumo tocar flauta. Sou um músico natural.
SUPERPAUTA – Quer dizer que você nunca estudou música. Aprendeu com a vida.
PETER PAN – Graças a Deus.
SUPERPAUTA – Por que o apelido de Peter Pan?
PETER PAN – Digamos que foi a noção nostálgica da humanidade que tentou dar um nome cabível a mim.
SUPERPAUTA – Além da flauta, seria também porque você gosta de usar boina? Peter Pan, o outro, usava um chapeuzinho verde com uma pena vermelha.
PETER PAN – Ninguém consegue controlar o destino. O destino me deu este apelido e eu não quero mudar.
SUPERPAUTA – Há quanto tempo você é Peter Pan?
PETER PAN – Há mais de vinte anos.
SUPERPAUTA – Você gosta de ser Peter Pan?
PETER PAN – Eu acho que não conseguiria ser outra coisa.
SUPERPAUTA – Você realmente se acha Peter Pan.
PETER PAN – Não. Eu sou o Peter Pan. Eu não me acho, eu sou. Mais do que Michael Jackson e outros bichos por aí.
SUPERPAUTA – Michael Jackson foi acusado de gostar de crianças de uma forma não recomendável, que resvalava na pedofilia. E você?
PETER PAN – Dizem que Michael Jackson usava as crianças. Eu gosto de ver que existem crianças. Para mim elas são apenas crianças, e não objeto de desejo. Aliás, nem com velha tenho me relacionado, quanto mais com crianças. O sexo não me atrai. Já me livrei desta cruz que vocês gostam de carregar.
SUPERPAUTA – Qual a sua idade?
PETER PAN – Cinquenta e sete anos. (NOTA: Ele tinha esta idade em 2014)
SUPERPAUTA – E já abdicou do sexo?
PETER PAN – Já. Você sabe o que o Nirvana? Eu já cheguei lá. Quando o homem consegue se realizar nos seus próprios sonhos e pesadelos, a carne é apenas um modo de ele continuar vivo. Já não representa tanto.
SUPERPAUTA – Quer dizer, no seu caso, que a carne pode continuar flácida sem problema.
PETER PAN – Também não é o caso. Não existe flacidez onde a dureza é permanente. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. Se eu fosse um bancário que me seduzisse pelos milhões, eu deixaria de ser bancário e me tornaria um ladrão.
SUPERPAUTA – Vamos voltar um pouco no tempo, na época em que você ainda não era Peter Pan. Qual o nome com o qual você foi registrado?
PETER PAN – João Antônio Simões dos Santos. Nasci em Angatuba, São Paulo. Foi a única cidade paulista que votou contra o uso de armas.
SUPERPAUTA – Nunca ouvi falar nesta cidade. Fica perto de onde?
PETER PAN – Rodovia Raposo Tavares, km 205. Embora ninguém me conheça na cidade, todo mundo me conhece. Se eu chegar lá, ninguém me conhece, mas todo mundo sabe quem eu sou.
SUPERPAUTA – Como foi a infância de João Antônio lá em Angatuba?
PETER PAN – Eu engraxava sapatos, vendia pirulitos...
SUPERPAUTA – Seus pais trabalhavam em que?
PETER PAN – Meu pai era pescador. Ele e minha mãe frequentavam a igreja católica. Eu também frequentei. Até meus sete anos, eu era uma criança que pouco sabia da vida. Meu pai, nessa época, fugia. Ele era antirrevolucionário. Na verdade, ele não defendia nenhum dos lados. Não queria a revolução, mas apenas viver a vidinha dele. Ele nem entendia direito o que estava acontecendo no país.
SUPERPAUTA – E sua mãe, fazia o que?
PETER PAN – Tentava me matar. Eu me defendia.
SUPERPAUTA – Por que ela tentava lhe matar?
PETER PAN – Por que eu chorava muito. Eu era recém-nascido.
SUPERPAUTA – Me corrija se tiver interpretado errado: você nasceu em um momento inoportuno. O casamento já tinha acabado...
PETER PAN – Já sabe tudo! Estou começando a achar que você sabe demais.
SUPERPAUTA – É que eu sou vidente.
PETER PAN – Evidentemente você é vidente. Evidentemente...
SUPERPAUTA – Esqueci de lhe dizer que sou quiromante, cartomante... Você também lê mãos?
PETER PAN – Longo caminho da linha da vida. Vai viver muito, faz até a curva! Aqui é a linha do amor. Foi traído, mas tem quem lhe ame.
SUPERPAUTA – Deixe eu ler a sua...
PETER PAN – Vamos ver se você sabe ler.
SUPERPAUTA – Por incrível que pareça, você é uma pessoa que goza de boa saúde. Porém, talvez por conta dos excessos, essa boa saúde está começando a definhar. Está vendo aqui? Observe a sua linha da vida e veja como ela vai se deteriorando...
PETER PAN - Não, isso aqui é um cravo.
SUPERPAUTA – É não. Isso aqui é a sua desgraça. Vai acontecer um problema com você.
PETER PAN – Já aconteceu e eu superei.
SUPERPAUTA – Aqui na linha da cabeça também vejo dias difíceis.
PETER PAN – Você não enxerga nada.
SUPERPAUTA – O problema que você superou foi mais emocional do que físico. Está aqui a marca.
PETER PAN – Não, não, não... Foi coisa de faca mesmo!
SUPERPAUTA – Posso ler o resto?
PETER PAN – Não. Agora chega. Você não sabe nada, está querendo inventar.
SUPERPAUTA – Se não sei de nada, por que o receio? Posso contar toda a verdade que vi na sua mão?
PETER PAN – Nem a pau.
SUPERPAUTA – Deixe eu dizer o que eu vi...
PETER PAN – Nem a pau.
SUPERPAUTA – Você sabe o que eu descobri...
PETER PAN – NÃO!!! CALA A BOCA!!! Não deixe o povo saber, se não vai ser real.
SUPERPAUTA – Então vamos continuar nossa entrevista. Onde a gente estava?
PETER PAN – Nos paradoxos. Sabe o que é um paradoxo? Sabe porque a minha mãe não me amava? Porque ela continuava amando o meu pai e eu era parecido com ele. Era um amor ao contrário.
SUPERPAUTA – Posso fazer uma pergunta crucial para a nossa entrevista? Sua mãe queria lhe matar...
PETER PAN – Meu pai não queria morrer...
SUPERPAUTA - ... você era realmente filho do seu pai?
PETER PAN – Procurei me manter fiel. Meu pai era revolucionário. Eu mantive a revolução. Minha mãe tentou me matar enquanto eu era inofensivo.
SUPERPAUTA – Você não quer responder se realmente era filho do seu pai. Está tergiversando.
PETER PAN – Você não fez a pergunta certa, no tempo certo.
SUPERPAUTA – Então, me ajude.
PETER PAN – Quando criança, sim. Mas depois passei a ser uma ameaça. Tentaram me matar de tudo o que foi jeito, mas não conseguiram.
SUPERPAUTA – Quais as formas? Você é muito persistente.
PETER PAN – Eu era deste tamanhozinho e morava dentro de uma caixa de sapatos. Chorava dia e noite. A condição financeira dos meus pais era péssima. Meu pai era bebum. Minha mãe cozinhava feijão, que era a única coisa que tinha para a gente comer. Misturávamos com farinha. Meu pai ia para o boteco e batia na minha mãe, quando voltava para casa. Minha mãe tentou me matar. Minhas irmãs não deixaram. Ela pegou a caixinha de sapatos, botou debaixo do braço e foi para o banheiro. Minhas irmãs impediram.
SUPERPAUTA – Qual a idade de suas irmãs quando isso aconteceu?
PETER PAN – Cinco e sete anos. Elas gritaram e pediram para minha mãe não fazer aquilo.
SUPERPAUTA – Onde suas irmãs estão hoje em dia?
PETER PAN – Uma delas, Fátima, foi locutora de um dos primeiros supermercados do Carrefour, em São Paulo. Não sei o que ela faz hoje. A outra, Silvia, está procurando vaga como doméstica. Está difícil. Ela tem mais de 60 anos.
SUPERPAUTA – Quer dizer que você sobreviveu à essa tentativa de assassinato...
PETER PAN – Sim, até que provem o contrário.
SUPERPAUTA – Sobreviveu ou escapou?
PETER PAN – Taí uma linha divisória bem difícil. Talvez eu tenha até morrido naquela época e nunca percebi. Dizem que praga de mãe nunca sai.
SUPERPAUTA – Você estudou?
PETER PAN – Sou autodidata. Aprendo qualquer coisa, a partir do momento em que eu quero. Fui o criador do vírus de computador, na era da informática. Nasci no dia 3 de março de 1957. Eu criei o vírus de 3 de março, que acabou com a informática e meteu o pau na IBM. (NOTA: o vírus Michelangelo, primeiro a repercutir na mídia, foi ativado em 1992, no dia 6 de março, dia do nascimento daquele artista renascentista. A partir daí, as vendas de antivírus decolaram. A participação de Peter Pan neste fato é crível apenas na Terra do Nunca).
SUPERPAUTA – Mas você não respondeu se algum dia estudou em escolas...
PETER PAN – Fui frequentador da Biblioteca de São Paulo.
Também estudei Paulo Coelho.
SUPERPAUTA – Paulo Coelho não tem nada a ensinar a ninguém... Como foi sua vida até os 15 anos de idade?
PETER PAN – Além de dormir no Arpoador e sair com Raul Seixas torrando dinheiro no Rio...
SUPERPAUTA – Explique como você saiu de São Paulo e apareceu no Rio de Janeiro.
PETER PAN – A pé. Conheço a Dutra toda. Eu estava afim de aventurar. Conheci um hippie que só comia cogumelos, mais nada. Chegou a ir para o hospital. Você não conheceu a malucada do Brasil...
SUPERPAUTA – O que você fez no Rio?
PETER PAN – Tomei drinque com o maestro Tom Jobim, com Toquinho...
SUPERPAUTA – Você procurou emprego no Rio? Tentou se aprumar na vida?
PETER PAN – Consegui, cara. Aliás, quis... Tentei arrumar emprego como taxista. Não deu certo porque eu não tinha carteira. Em São Paulo eu dirigia sem carta; no Rio, não. Em São Paulo dirigi cinco anos sem ser incomodado. No Rio, não.
SUPERPAUTA – Em que você já trabalhou?
PETER PAN – Vou tomar mais um gole de cerveja porque ela não está funcionando. Trabalhei por debaixo do pano.
SUPERPAUTA – Fazendo aborto?
PETER PAN – Sou a favor do aborto desde que a mulher não esteja grávida.
SUPERPAUTA – Você é muito ensaboado.
PETER PAN – A mulher não estando grávida, sou a favor do aborto.
SUPERPAUTA – Contanto que você faça o aborto...
PETER PAN – Claro que vou estudar muito bem a situação. Muita calma nessa hora. Pra quem não pode comer bacalhau, só sentir o cheiro já basta. Deixa eu dar uma fumada.
SUPERPAUTA – Fume logo dois de uma vez! Mas, responda: você nunca trabalhou fixo em nenhum lugar?
PETER PAN – Cara, eu nunca tive muito tempo disponível para uma atividade apenas. Eu sempre tive tanta coisa para fazer que não deu. (Risos). Não dá para fazer uma coisa só. É ser unilateral, é exigir demais. Se eu puder ser o guardião da verdade, vou ter que enxergar todos os parâmetros desta verdade.
SUPERPAUTA – Como se deu sua transferência do Rio de Janeiro para Brasília?
PETER PAN – Seria penúria demais vir a pé, então, vim de bike. Digamos que as atenções estavam voltadas para Brasília. Em 1986 foi assinado um tratado dizendo que haveria transporte de graça para todos os estudantes. Até hoje não foi cumprido, por que?
SUPERPAUTA – Provavelmente faltou tinta na caneta do primeiro signatário deste documento.
PETER PAN – Quer dizer que nem a caneta prestou nessa hora...
SUPERPAUTA – Documento sem assinatura não vale.
PETER PAN – Outra palhaçada é a Constituição não ter uma lei da mendigagem. A mendicância existe desde o começo da humanidade, foi a primeira profissão do ser humano. Depois foi que surgiu a prostituição.
SUPERPAUTA – Há controvérsias...
PETER PAN - É fácil de provar: primeiro você pede, depois é que tem que dar. O que significa E=mc2?
SUPERPAUTA – É a equação matemática que faz parte da teoria da relatividade.
PETER PAN – Significa que a energia é igual a massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. Eu também sei.
SUPERPAUTA – O que você acha sobre o carma?
PETER PAN – Vá com “carma”... Vá com “carma”. Não tem jeito de andar sem “carma”. Ou vai com “carma”, ou não vai...
SUPERPAUTA – Carmicamente falando, você acha que sairá do planeta terra melhor?
PETER PAN – Você acha que eu vou na sua ou na minha opção? Você tem opções? Você acha que vou acompanhar o seu raciocínio? Eu sou “PHD”. Sou “phoda”, com “PHD”. Eu ainda não fiz a melhor parte, mas chegarei lá. Ninguém sabe o que eu ainda vou fazer. Tudo é relativo. Eu precisaria de dois filhos para ter motivo para ter um emprego.
SUPERPAUTA – Ah, então agora está justificado o fato de você não querer mais nada com sexo. Sem sexo, não nascerão os dois filhos que teoricamente fariam com que você precisasse trabalhar.
PETER PAN – Pela diretriz do seu questionamento, pode até ser. Mas, na realidade, eu já “tengo tantos hermanos que no los puedo contar”. (NOTA: Referência à canção Los Hermanos, de Atahualpa Yupanqui).
SUPERPAUTA – Você já esteve em outros países?
PETER PAN – Espiritualmente eu conheço todo o Peru. No Natal sonho com um peru na mesa. Só não posso exagerar no peru, porque a champanhe tem que ter seu espaço.
SUPERPAUTA – Ainda não ficou bem clara sua passagem pelo Rio de Janeiro...
PETER PAN – Fui pescador de mariscos lá na Urca. Eu não tinha uma mulher, frequentava os cabarés da Lapa. Cheguei em Brasília no ano em que a Zélia Cardoso abandonou o barco e deixou o Ministério na era Collor. Ela foi quem tirou Dilma Rousseff da cadeia. Ela era filha do secretário de Segurança de São Paulo quando a Dilma estava presa.
SUPERPAUTA – Essa sua conversa está sem futuro. Que história é essa? É mentira.
PETER PAN – Você não sabe disso? Sabe como ela conseguiu trabalhar com Collor? Só depois que Zélia tinha trabalhado na equipe de transição do governo. Ele nem sabia que ela era sua prima. Nenhum dos dois sabia do outro. Você sabe como foi criado o salário mínimo brasileiro?
SUPERPAUTA – Não.
PETER PAN – Foi depois de um jantar no Terraço Itália, em São Paulo. As autoridades pegaram o valor da despesa, dividiram por pessoa, e definiram como salário mínimo. Cada trabalhador receberia por mês o correspondente a um jantar de gala. Outra coisa que certamente você não sabe foi o que Delfim Netto falou na saída do Ministério: “a corrupção é uma forma de política”. Falou ali, ao vivo e a cores.
SUPERPAUTA – Mas como você chegou em Brasília?
PETER PAN – Vou falar igual ao JK: “cheguei de Galaxie, cheguei de Galaxie”...
SUPERPAUTA – Capriche aí nas respostas porque essa entrevista vai ser publicada na Internet e, provavelmente, em pouco tempo você estará sendo procurado pela produção de Jô Soares para participar do programa dele na Globo.
PETER PAN – PQP! Deixa ao menos Jô se recuperar da morte do filho dele.
SUPERPAUTA – Qual a diferença que você encontrou em Brasília, depois de ter morado no Rio e em São Paulo?
PETER PAN – É que aqui se chover eu me molho. Em compensação, se eu soltar meus raios, vou fazer trovões.
SUPERPAUTA – Você está vendo, aqui no gravador, que cada palavra que eu falo repercute nesta linha que registra a gravação? Isso significa a sua vida passando a conta-gotas.
PETER PAN – Uau! Poderia ser pior. Poderia ser um terremoto com registro alto na escala Richter.
SUPERPAUTA – E em Brasília, você faz o que?
PETER PAN – “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”. (NOTA: Citando O que é o que é, de Gonzaguinha). Antigamente era bem melhor. Eu já tinha conhecidos por aqui. Trabalhei como mecânico. Sou capaz de construir uma nave espacial.
SUPERPAUTA – É capaz também de prever o futuro do Brasil?
PETER PAN - O Brasil só tem uma esperança: não esperar muito. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. (NOTA: citação de Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré).


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Entrevista: Júnio Santos


ARTISTA: O LIVRO QUE FALA, CANTA E INTERPRETA



Em setembro de 2008, o jornal Zona Sul publicou entrevista que fiz, em Mossoró, com o ícone do teatro potiguar, Júnio Santos. Naquela época, ele morava em Icapuí, no território cearense. Nômade, esse potiguar hoje mora em Carnaúba dos Dantas. Amanhã, quem saberá seu paradeiro? Por motivos de espaço no jornal impresso, tive que subtrair metade da conversa que esse fundador do grupo de teatro de rua Alegria Alegria manteve conosco. Agora, corrigindo a história, vamos publicar na íntegra o papo travado em dois botecos da terra mossoroense.

Na edição do Zona Sul, o texto de apresentação da entrevista foi este abaixo:

“Desde que Júnio Santos trocou o RN pelo Ceará, só o vi duas vezes. Ambas em Mossoró. Na primeira delas, quase não nos reconhecemos. Mesmo assim, a alegria foi imensa. Nessa última, durante a Feira do Livro da cidade, não perdi a chance de entrevistá-lo. E foi ótimo perceber que ele continua em ótima forma. Durante a conversa, quando ele classificou o artista como “livro que anda”, fui obrigado a concordar de imediato, depois de ouvi-lo contar tantos fatos de sua vida. Júnio é mesmo um livro que anda, fala, conta, canta, interpreta, mostra e prende a atenção de qualquer um. Experimente, caro leitor, navegar pelas alegrias e também pelos caminhos tenebrosos do grande ator potiguar Júnio Santos”

Agora, vamos a integra da conversa daquela tarde-noite. (robertohomem@gmail.com)

ZONA SUL – Qual o seu nome completo?
JÚNIO – Pouco tenho usado o meu nome completo. Desde menino que eu não uso muito. Tem até uma história interessante: certa vez perdi um voo porque me chamaram e eu não lembrava mais que o meu nome era aquele. Meu nome completo é o nome do meu pai, um nome comum: João Batista dos Santos Júnio. Mas, desde menino começaram a me chamar de Júnio Santos. Então, sempre que minha mãe me chamava, usava o Júnio Santos. Meus irmãos também. Nesse tempo todinho da minha vida, só tinha uma pessoa que me chamava de João Batista. Era o professor Carlinhos, que me ensinou na Universidade. Ele costumava me chamar de Professor João Batista. Era o único! Então, nunca me acostumei. Sou Júnio Santos, nome adquirido por meio de um batismo informal.
ZONA SUL – Onde você nasceu?
JÚNIO – Sou natalense, sou potiguar: nasci em Natal. Sei inclusive a rua. Nasci na Avenida 7, na Vila Naval. Meu pai era militar, sargento da Marinha, além de pastor protestante. Nasci com a velha Mãe Toinha, que era a grande parteira da região.
ZONA SUL – Você teve formação evangélica?
JÚNIO – Sim. Minha infância foi toda dentro de igrejas, inclusive fui presidente de mocidade. Eu preguei em igreja. Até tive um programa na antiga Rádio Trairi, que se chamava “Vencendo vem Jesus”. Era transmitido todos os sábados, às seis horas da manhã. Eu tinha 13 anos, na época. Fazia culto na igreja. Eu tocava violão e a minha mãe tocava acordeom. O meu pai cantava, meu avô tocava violão e os meus irmãos todos são músicos. Tenho um irmão regente de coral em Natal, o Isaque. Minha formação foi daquelas de passar Carnaval em retiro, por exemplo. Porém, um dia - quase por um acaso - peguei um livro que me deu a curiosidade de saber o que era filosofia. Nesse período a filosofia tinha saído de dentro da escola. Seu ensino era proibido. Mas eu peguei um livro muito simples. Era quase uma história em quadrinhos, mas nele vinham todos aqueles questionamentos: de onde você vem, pra onde você vai, o que lhe rege, o que é a natureza... E eu passei a ter uma compreensão maior do que o senso comum minimizado que o Evangelho prega. A Bíblia aponta somente para uma salvação, e ela não é nem terrena. É uma salvação que você não consegue vislumbrar como vai ser. A partir dali comecei a perceber. Percebendo, entrei no PCB, o Partido Comunista Brasileiro.
ZONA SUL – Isto foi em qual ano?
JÚNIO – No início dos anos 1970. Como sou de 1955, em 1970 eu tinha 15 anos. O PCB estava totalmente na ilegalidade, mas tinha o “Instituto Luís Maranhão” que funcionava por trás do hoje “Memorial Câmara Cascudo”. Lá havia todo um trabalho de formação. Faziam parte do partido pessoas como Serginho Dieb, Hermano, Carlos Furtado... Nesse ambiente formamos nossa primeira base de artistas. Sempre que há esse tipo de redemoinho de mudança, aparece, na vida, a arte.
ZONA SULA arte surgiu na sua vida pela primeira vez na forma de música?
JÚNIO – Sim. Na verdade, era para eu ser um grande músico, mas a forma de educar tinha muita obrigatoriedade. Tinha que levantar cedo e ir para o piano, assistir às aulas. Depois meu pai viajou e conheceu a tal da pianola, que era mais simples que o piano e vinha nas teclas o nome das notas. Passei a exercitar ali. Mas eu era fujão, escapava para bater bola. Eu queria jogar futebol, e não tocar. Mas posso dizer que tocar mesmo, poder dizer “estou tocando minhas primeiras músicas”, isso aprendi sozinho, e já depois dos 15 anos de idade. Hoje me arrependo um pouco de não ter tido o afinco que meus irmãos tiveram, porque a música é uma coisa maravilhosa e acho que rege todas as outras artes. Ela nasce com o ser humano. As outras artes surgiram depois, mas a música nasceu com o mundo, o mundo nasceu musicalmente.
ZONA SUL – Como seu pai - evangélico e militar - encarou esse afastamento da Bíblia e a aproximação com o PCB? Isso causou um distanciamento da família?
JÚNIO – Houve uma ruptura, uma quebra nos valores familiares. Lá em casa somos seis homens e duas mulheres. Por ser o filho mais velho dos homens e carregar o nome do meu pai, havia uma expectativa de que eu seria pastor para substituí-lo. Em todas as famílias há aquele no qual se aposta dará continuidade às atividades do pai. E eu aprendi a ler na Bíblia. A Igreja obrigava a decorar determinado número de versículos pras disputas nas escolas dominicais. Até hoje, quando boto a cabeça pra funcionar, ainda tenho alguns na memória. A Bíblia é um livro lindo, talvez um dos mais bem escritos do mundo. Por outro lado, havia também a figura do meu avô, Luiz Pereira Lucena, conhecido como Bizá. Ele era motorista do Correio Aéreo Nacional, o CAN, e um teólogo sem nunca ter frequentado faculdade de Teologia. Apesar disso, ele tinha um conhecimento bíblico fantástico. Costumava me dizer que quando eu lesse um versículo procurasse no dia seguinte ler de novo, porque a cada vez eu ia entender diferente, já que eu não era mais a mesma pessoa. Isso começou a se juntar com as questões filosóficas. Depois que rompi com meus pais, fui morar com esse meu avô.
ZONA SUL – Você rompeu com seus pais logo que se filiou ao PCB?
JÚNIO – Minha primeira saída de casa foi muito cedo. Quando eu tinha 14 anos, fui embora para o Piauí. Minha família não sabia, só o meu avô. Foi ele quem me botou em um avião dos Correios que desceria em Parnaíba. Não tinha poltrona, as fileiras eram uma de frente para a outra, tipo avião de paraquedista. Lá conheci uma senhora, fomos conversando. Ela me levou para sua casa.
ZONA SUL – O que você foi fazer no Piauí?
JÚNIO – Na época em que meu pai era pastor em Recife, tinha um programa na Rádio Relógio. Começava às seis e vinte. Antes, passava a Hora do Ângelus, da igreja católica. Um padre se apaixonou por minha irmã e ela por ele. Fugiram, casaram e foram morar em Teresina. Como eu sentia necessidade de sair de casa, devido as relações familiares não estarem boas, resolvi ir para Teresina. O voo era só até Parnaíba. Lá fui para a casa da senhora que conheci no avião. Foi muito maluco, porque ela não me conhecia. O aeroporto era longe, tinha um fusquinha esperando ela, com o filho. Convidou-me para ir para sua casa, porque só tinha ônibus para Teresina três dias depois. Fui e quase fiquei por lá mesmo. Mas, com três dias, fui embora para Teresina. Eu estava naquele período de muita aventura. Minha geração fugia de várias coisas internamente e também externamente, quando necessitávamos mudar de lugar. Vivíamos fugindo.
ZONA SUL – Foi lá que você começou a mexer com teatro?
JÚNIO – Brinquei pela primeira vez com teatro na escola. Participei de alguns esquetes. Eu já tinha feito na igreja, mas o teatro religioso não era no ritmo que eu queria. Eu adorava a questão da comicidade, das comédias picantes e tal. Mas fiz teatro em Teresina apenas por um ano. Foi um pouco trágico, porque voltei a Natal para passar as festas de final de ano em casa e fui proibido de retornar a Teresina. Foi pior porque lá eu tinha experimentado o meu primeiro amor: eu tinha 15 anos e ela tinha 35. Minha irmã ligava dizendo que a mulher estava jogando bilhetes perfumados por baixo da porta, essas coisas todas. Fiquei em Natal, mas não morando na casa do meu pai. Fui para a Casa do Estudante. Como eu não podia ocupar um quarto, por não ser do interior, fui para um quartinho que tinha sido dos Escoteiros do Mar, ali no Paço da Pátria, junto com mais outras pessoas que não tinham conseguido vaga na casa. Pra compensar a estadia, eu lavava louça no sábado ou domingo.
ZONA SUL – E você estudava onde?
JÚNIO – No Instituto Padre Miguelinho. Lá tinha um grupo de teatro. Eu sempre ia, ficava lá atrás, assistindo aos ensaios. Tinha uma professora maravilhosa, daquelas inesquecíveis, chamada Terezinha Peixoto. Professora de literatura e promotora em Ceará Mirim. Terezinha me encantou pra leitura e para o teatro. Nosso primeiro desafio foi um desafio tremendo. Montamos uma peça chamada O santo e a porca, de Ariano Suassuna. Foi a minha estreia. Foi na época em que tinha havido uma enchente muito grande em Jucurutu. O povo estava desabrigado e o espetáculo era uma forma de arrecadar recursos e alimentos para os desabrigados. Ela era promotora em Jucurutu nesse período e nós fomos pra lá, onde fiz minha grande estréia.
ZONA SUL – Em qual ano?
JÚNIO – Por volta de 1971. Estreia mesmo no teatro, de forma profissional, foi em 1973, quando eu já era do Teatro Jesiel Figueiredo e passei a trabalhar no teatro infantil. As coisas foram muito rápidas e boas pra mim. Natal naquela época basicamente tinha três grupos. Todos eles, de uma forma ou outra, estavam ligados a alguma instituição. O Tônus (Teatro Novo Universitário), com direção de Carlos Furtado, era ligado à Universidade. O Teatro Jesiel Figueiredo, mesmo sendo independente, tinha uma ligação com o SESI. Lá o Jesiel tinha a sua fábrica de atores. Ali que aparecem Ismael Mendes e outras figuras. O Racine Santos, com o Tablado Nordestino, tinha o apoio da Fundação José Augusto. Depois foram surgindo outros grupos, como o Grupo Expressão, da TVU. Fui convidado para o Jesiel Figueiredo ainda no Padre Miguelinho, pelo Ismael Mendes. Fiz um teste e entrei para o espetáculo infantil. Em 1973 surgiu na TV Universitária de Natal o projeto Sitern (Sistema de Tele-Educação do Rio Grande do Norte).
ZONA SUL – Qual foi a peça da sua estréia profissional?
JÚNIO – Estreei profissionalmente fazendo teatro infantil. O Teatro Jesiel tinha cachê em todos os espetáculos. Jesiel marcou a história do teatro no Rio Grande do Norte, ninguém pode negar. Foi talvez historicamente uma das figuras mais importantes do teatro do estado. Através dele o teatro potiguar rompeu as fronteiras do RN. Depois aproveitamos essa porta aberta para levar uma outra proposta teatral pra fora. Mas ele já tinha a marca. E Jesiel tem uma marca profunda porque ele é de um período onde havia uma discriminação muito grande. E, da mesma forma, o pai de Jesiel, Josué, também era protestante da mesma igreja do meu pai. E ele tinha um irmão, chamado Jessé, que era casado com uma tia minha. Então estávamos dentro da mesma família. Considero minha entrada profissional com o teatro infantil. Acho que ali tinha uma ação profissional: a gente tinha horário de trabalho, tinha que ser pontual. Os espetáculos começavam cinco da tarde e todos tínhamos que chegar às duas. De manhã a gente tinha que ir ao cabeleireiro, fazer todo esse processo que um ator faz. O tratamento do teatro infantil tinha uma idéia de qualidade, de cuidado com os atores. A primeira peça que fiz foi O pequeno polegar. Meu tamanho já me credenciava a ser o ator principal. Depois fiz uma série de peças, como O pequeno príncipe... Sempre com nome de pequeno. O príncipe valente... Fiz uma média de três ou quatro espetáculos infantis nesse período de um ano. Foi muito importante para a minha manutenção como ser humano. Aqueles recursos me alimentavam, pagavam minha roupa. Comecei a ter uma independência com 15 anos de idade, através da arte, do teatro. Depois surgiu o Sistema de Tele-educação do Rio Grande do Norte, Sitern, que funcionava na TV-Universitária, que era lá no Inpe, perto do Campus. Houve um concurso, me inscrevi nele. No dia da prova, estava lá toda a nata do teatro do Rio Grande do Norte. Fiquei pensando que não passava, era muito jovem, mas passei. Estava com 18 anos. Passei, e minha carteira - como a dos 20 atores que trabalharam lá - foi assinada em 1973 e a lei de criação da profissão é de 1978. Mas lá a gente já tinha assinado a carteira, já reconhecido pelo DRT, antes da lei ser criada. Só que o nome não era ator ou diretor. O ator era intérprete, porque dentro da lei existia uma brecha. Nas outras entrou intérprete, de interpretar. Algumas pessoas confundiam se a gente era intérprete de alguma língua. Mas fiquei na TV-U e lá fiz minha estréia em um espetáculo para adulto, espetáculo dirigido pelo Carlos Furtado, que não foi uma marca muito boa no trabalho, não teve um resultado interessante. O nome era A derradeira Ceia, de um dramaturgo pernambucano chamado Luiz Marinho.
ZONA SUL – Que papel você fazia?
JÚNIO – O de um filho de um coiteiro de Lampião, mas não considero esse como o espetáculo que eu queria começar no teatro pra adultos. Depois veio a criação do Grupo Expressão de Teatro da TVU. Montamos O assalto, que era um texto de suma importância para o teatro brasileiro naquela época. Escrito por um mineiro chamado José Vicente. O diretor João Batista Campanholi. Ele estava chegando a Natal como professor da Universidade e diretor da TVU junto com o Arnon e com o José de Castro. A direção foi do Carlinhos Meireles. O assalto foi e é, sem dúvida, o espetáculo mais importante desses meus 36 anos de brincadeira. Com essa peça ganhei meu primeiro prêmio como ator coadjuvante no Festival de Ponta Grossa, em 1978. Foi muito marcante. Foi um trabalho completamente diferenciado dos outros que eu tinha participado. Nos outros eu fazia muita ponta, em O Assalto eu era coadjuvante. Só havia dois personagens em cena. Tem uma cena em que eu fumava e tirava a roupa. Só que o censor proibiu a tirada da roupa e fui obrigado a usar uma cueca branca. Só que quando eu entrava de cueca branca, Carlinhos Meireles – que também cuidava da iluminação - aumentava a força da luz. Era o mesmo que eu estar nu. Tinha também uma cena de beijo com outro homem, o Maurício Pandolphi. Imagina que meu pai foi me assistir pela primeira vez, eu o tinha convidado. Nessa hora, ele não saiu do teatro porque minha mãe segurou. Ela, como a maioria das mães, era minha tiete de primeira grandeza. Já era ela quem me incentivava, fazia das minhas fotografias quadros para colocar no quarto dela. O lado artístico da minha mãe, nessa hora falava mais alto que seu lado evangélico. Ela segurou a barra, dizendo “isso é arte, é teatro, não sei o que”. Mas o artista levava aquela marca de quem fazia teatro ou dança naquele período: ou era homossexual (na época não se chamava nem homossexual, era um tratamento pejorativo mesmo) ou então era drogado, vivia no mundo das drogas, fumando ou cheirando. Isso nos acompanhou por muito tempo. Se era chamado para fazer uma aula de dança, por exemplo, participar do Balé Municipal, tinha que entrar escondido na galeria, porque se o povo visse, o cara ficava marcado. Quando alguém dizia que fazia teatro, o povo olhava pra você com uma cara assustada. Hoje fico feliz quando vejo essa ruma de menino fazendo teatro e dizendo com o maior prazer que é ator. As pessoas entendem como uma profissão importante, como todas as outras. Sem o artista, a vida ficaria sem graça.
ZONA SUL – Como foi seu período na TVU?
JÚNIO - Foi naquele período do velho canal 5, uma grande escola pra quem teve a oportunidade de participar. Fizemos cursos de rádio e de televisão. Convivemos com jovens profissionais, mas com uma vontade enorme. Dácio Galvão, hoje na Capitania das Artes, era um câmera e também um dos diretores de corte da TV. A produção tinha Bosco Teixeira, um cara que pensava muito a questão do cinema e da arte. Tinha Carlos Furtado... Era uma equipe muito profunda. Os nossos eram programas infantis, para serem usados nas aulas. Iam zona rural. Acho que foi dos primeiros processos de educação à distância que apareceram no Brasil. Existia no RN e em São José dos Campos. Depois passou a ter também no Ceará. Meu personagem era chamado Palhaço Bolão, que virou, em pouco tempo, a sensação da meninada. A gente gravava todos os dias. Em um ano fizemos 160 programas. Comecei com Português, depois entrei na Matemática. Tinha uma resposta muito positiva por causa da força da televisão. Chegavam cartas da meninada. Montamos uma caravana em cima de um caminhão pra percorrer os sítios da área que a TV abrangia. O Enoch Domingos preparou as músicas do espetáculo. Foi um momento em que me senti muito reconhecido como ator. Só que tivemos problemas de ordem política, dentro da TVU. Na campanha salarial de 1979, fizemos uma greve. Nessa época houve uma mudança na TV. A equipe antiga saiu: Zé de Castro, Arnon, João Batista Campanholi. Entrou o Carlos Lima. Fomos para uma luta salarial e, no final de toda essa peleja - dessa greve que fizemos de não gravar programas - duas pessoas saíram da TV Universitária. Fomos demitidos eu e a atriz Quinha Costa, que hoje está na Holanda. Saímos já em 1980, e no mesmo ano fui convidado por Racine pra integrar a equipe do Tablado Nordestino e passei a fazer teatro com ele. Fiquei até 1982.
ZONA SUL – O que representa a arte na sua vida?
JÚNIO – É a minha loucura, a minha busca em saber. Arte todos fazem: um vai fazer melhor que o outro porque vai procurar se aperfeiçoar mais. Mas todos fazem. A arte é livre, democrática e todos têm que fazer mesmo. Não é necessária nenhuma regra ou escola pra interpretar. As pessoas têm que aprender. Quem quiser ir pra escola vai, mas isso não é uma coisa que impossibilite que as pessoas interpretem. Acho que é uma atividade super-democrática. Quem consegue dizer “estou fazendo teatro”, “estou fazendo música”, “estou fazendo dança” vai ser muito mais feliz do que os que não estão tendo acesso a isso. A arte é a busca da felicidade pro seu corpo e a sua mente. Mas, depois de Racine, entrei no grupo, um movimento de Petrópolis chamado MIJO (Movimento de Integração Jovem). Era ligado à igreja católica. Lá conheci figuras que marcaram minha vida. Eu tinha já um nome na cidade e eles estavam começando. Conheci Jorge Romano Neto, que hoje é arquiteto, e um dos maiores autores e diretores de teatro que conheci dentro do Rio Grande do Norte. Ele me convidou pra gente montar um espetáculo chamado O troco, de um autor chamado Domingos Pelegrini Júnior. Interessante é que quando eu encontrava com as figuras que tinham trabalhado comigo na TVU, ou no Tônus, ou no Tablado, ou no Grupo Expressão, elas achavam que eu era quem dirigia a peça, e não o Jorge. Havia uma descrença nas pessoas do meio, no potencial de quem estava começando. Como eu já estava, já vinha da TVU e vários outros espetáculos, para eles eu interferia. Diziam que eu tinha feito aquela montagem e colocado outro como diretor. Na verdade, eu desde aquele tempo já tinha uma coisa comigo, que era o respeito e a disciplina com o outro. Se você vai me dirigir, eu não me importo com o seu currículo. A minha função é de ator. Você é diretor. Se me mandar voltar 500 vezes, volto sem fazer cara feia. Se disser “vá praquele lado”, vou. Aprendi muito isso dentro da TVU. Fiz O troco, foi um espetáculo que rodamos bastante. Fomos a Recife, Aracaju... Nessa época tinha um projeto da Federação de Teatro da Paraíba chamado Vamos comer teatro. Circulava pelo Nordeste todo. Os grupos eram escolhidos e circulavam pelo região toda. Circulamos sempre juntando o fazer da arte com a possibilidade de conhecer outras pessoas e participar da boêmia. Terminar um espetáculo e não sentar num canto pra tomar alguma coisa e conversar sobre ele, não tinha a menor graça. Ninguém ia pra dentro de um quarto dormir depois que terminava a peça.
ZONA SUL – O cara nem consegue
JÚNIO – Nem consegue. Tem que dar continuidade ao espetáculo que é conversar sobre ele. Debater onde acertamos, onde erramos, quais as possibilidades que vai ter para o próximo, o que pode fazer. Tem que ter a festa. Mas, depois de todas as experiências que falei, descobri que eu precisava ter um grupo. Até aquele momento, eu vinha passando por grupo dos outros, participando de montagem dos outros. Comecei a ver que havia uma brecha dentro do Rio Grande do Norte, para uma forma de teatro que não se fazia lá. Coordenei alguns festivais no Teatrinho do Povo, o Teatro Sandoval Wanderley, e eu sentia que o sonho dos meninos da periferia era um dia se apresentar no Teatro Alberto Maranhão. Pensei em fazer um teatro que não precisasse do Teatro Alberto Maranhão. Que não precisasse de palco ou luz, mas apenas de uma praça, de ter gente ao redor, o povo pra assistir. Comecei a ver, saí pra assistir um grupo chamado Imbuaça, em Aracaju, que fazia teatro de rua. Ele esteve em Natal também, veio pra Mossoró... Aqui houve o primeiro problema policial da história do teatro, porque era proibido fazer teatro na praça. Fomos até a delegacia, e quando o grupo terminou o espetáculo, saímos da delegacia. Ninguém proibiu porque a gente estava discutindo com o delegado sobre a liberdade das praças, repetindo as velhas frases do Castro Alves: “a praça é do povo como o céu é do condor”. Assim surgiu a ideia de formar o Alegria Alegria. A primeira linguagem que pegamos foi a linguagem do palhaço.
ZONA SUL – O grupo de Aracaju fazia teatro de rua também...
JÚNIO – O Imbuaça fazia só com cordel. E eu não queria ficar copiando. Também conheci o Amir Haddad, que já trabalhava com o teatro e tinha um processo mais de inquirir as pessoas sobre determinadas questões. Boal já tinha sua forma de trabalhar, e a gente tinha que buscar a forma papa-jerimum de fazer teatro. Não adianta você trazer a prática do Rio ou de Recife pra Natal. Somos diferentes. Não adianta nem pegar a prática de Natal e levar para o interior, porque não é a mesma coisa. Temos características completamente diferentes. A cada lugar dentro da mesma cidade, do tamanho de Natal, Brasília ou qualquer que seja, você vai encontrar em cada bairro um segmento de cultura diferenciado do outro. É isso que faz o nosso produto, o fruto da nossa miscigenação. O povo tem sua forma de expressão cultural que se transforma em arte quando ele dá brilho, quando ele dá cor, quando ele dá voz, quando ele dá gesto, quando ele dá movimento. Criamos o Alegria Alegria em uma casa de Petrópolis, numa conversa com Nélson Rebouças, eu, Lula, Medeiros, Rino Dantas e o Galvão, que tava chegando também pra fazer algumas músicas. Depois acrescentamos a eles uns meninos do grupo Ponto de Partida, o Alex e o Jorge Romano, que participavam de outro grupo, mas integravam também o Alegria Alegria e partimos pra ocupar a grande brecha que existia no momento, que era fazer as lutas populares.
ZONA SUL – Em qual ano?
JÚNIO – Já 1981. Em 1983, o Alegria Alegria surgiu de fato. Em 1981 promoveu a primeira oficina de palhaço no Teatro Sandoval Wanderley. Fizemos o primeiro cortejo de palhaços, saindo do Alecrim até o Centro da cidade, em cima de uma carroça. Em 1983 entramos na campanha das Diretas. Fizemos as bases, as pontas das ruas até o frustrante momento - todo mundo no Sindicato dos Professores – quando o pessoal por telefone ia dando a notícia de quem tinha votado a favor ou contra. A sessão não foi televisionada. Ficamos entretendo as pessoas, aguardando o final da votação. Dali estabelecemos uma relação com os sindicatos, passamos a ter uma aproximação muito forte com o Sindicato dos Bancários, fazendo várias lutas sindicais, a retomada do Sindicato dos Comerciários, o Sindicato da Limpeza. Depois vieram todos aqueles sindicatos. Começamos a operar junto do meio sindical, uma brecha que ninguém tinha utilizado antes. Isso não quer dizer que antes não se fazia teatro de rua, se fazia. Nas Quintas mesmo, no final dos anos 1970, na Rua Baraúna, tinha um espetáculo chamado Dona Baraúna vai a prefeitura. Mas era esporádico, não tinha uma vida de teatro de rua. Depois as pessoas iam fazer os teatros nos centros sociais, nas comunidades. O Alegria Alegria foi de fato o primeiro grupo a se instalar como teatro de rua. Pra isso a gente teve que ser radical. Somos teatro de rua e somos contra aquele outro. Hoje, lógico, somos a favor de todos os teatros. Eu pelo menos defendo que todos são importantes. Mas, pra gente pegar o número de pessoas interessadas, entramos na radicalização mesmo. Aproveitamos um texto do Racine, chamado As aventuras de Pedro Malasartes pelos caminhos tenebrosos do sertão. Conversei com ele pra mudar o final, que no original de Racine era um pastoril. E eu quis mudar pra um Boi de Reis. O Boi Calemba é uma coisa muito forte. Montamos pro boi, esse espetáculo. A primeira coisa que ele diferenciava do outro, além de estar na rua, ele não tinha maquiagem. O único ator que pintava o rosto de preto era o Alex, porque as Caterinas são feitas por homens que pintam o rosto de preto. Todos os atores não tinham maquiagem, era cru. E as roupas era a coisa mais simples, então não tínhamos bagagem. Era a calça e a camisa.
ZONA SUL – E o custo também era reduzido...
JÚNIO – Custo muito reduzido. Saímos sete num fusca pra fazer uma campanha do Sindicato dos Cortadores de Cana em Ceará Mirim. A coisa maior que tinha era um boi, que era de espuma, feito por João Marcelino. Ele fez uma coisa fantástica. Nosso figurino, por mais simples, só aquelas palas, com as cores que a gente chegava e o boi, já chamava atenção de todo mundo. Então a gente botava o boi lá na frente do Fusca, na malinha da frente e iam sete pessoas fazer espetáculo debaixo de poste, dentro do canavial. Tinha toda uma facilidade, a gente tinha pensado em toda essa praticidade. É um espetáculo de praticidade.
ZONA SUL – Desde o princípio a recepção do público foi boa?
JÚNIO – A nossa estreia foi maravilhosa. Estreamos na Praça Kennedy, que antigamente chamava-se Praça da Cocada. A nossa estreia já foi uma coisa assustadora. Quando terminamos, o povo tava ali junto, querendo saber quando ia ter de novo. Na época não tínhamos nem sede, ocupávamos uma sala em uma casa alugada pela Fundação José Augusto, chamada a Casa dos Artistas. Os grupos que estavam em ação, cada qual tinha um quarto lá para guardar seu material. Nos reunimos lá e definimos que toda quarta-feira teria espetáculo no mesmo canto. Na quarta-feira a gente não vende, é o nosso. Nos outros dias está livre para fazer o que quiser com ele. Se a gente estiver em algum canto já, festival, a gente avisa com antecedência que naquela quarta não vai fazer, mas só no caso de não estar na cidade. Marcamos. Quando construíram o Calçadão do Grande Ponto, passamos pra lá. E marcamos todas as quartas-feiras, às cinco da tarde a gente abria a roda ali com o mesmo espetáculo. Chegou um momento que estávamos comemorando 500 apresentações do Pedro Malasartes. Só lá naquele local a gente tinha feito 200. Quase a metade.
ZONA SUL – A imprensa desde o princípio recebeu bem o Alegria Alegria?
JÚNIO – Recebeu. Nunca procuramos. Como a gente fazia teatro de rua, botamos na cabeça que a imprensa tinha que vir até a gente. E começou a imprensa a vir. Aparecia sempre um jornalista pra fazer uma matéria, o Vicente Serejo sempre mandava alguém, a Tribuna do Norte também. Tínhamos a coluna de Woden, que era superlida, que nos cedia espaço para divulgarmos o que quiséssemos. Ele sempre colocou nossas mensagens. Ele tinha um respeito e uma admiração muito grandes pelo nosso trabalho. Isso fez com que a gente trabalhasse junto e foi uma relação muito boa. Com as nossas diferenças, muito boa. Tinha alguns segmentos da imprensa, alguns jornalistas que passavam e nem olhavam. Mas a gente tinha poucos jornalistas discutindo arte. A gente tinha um Rogério Cadengue, dentro da Universidade, brigando por esses espaços, para que os jornais dessem espaço. Havia já uma aproximação em torno daquele grupo que estava surgindo na rua. Estreamos sem material, sem nada. Só com o boi que a gente tinha feito. Em seguida vendemos 10 espetáculos à antiga Secretaria de Turismo e Cultura, que era Gileno Guanabara o secretário, em troca do material. Por três dias a gente já estreou com todo o figurino pronto. Para botar esse espetáculo, convidamos os atores que não eram do grupo para passar a integrar o grupo. Grimário, que hoje está com o Alegria Alegria, foi um dos que trabalhava na Setas e eu fui lá convidá-lo para fazer o Capitão João Redondo. Aí ele chamou o Dimas Marques, que era ligado a Toinho Silveira. O Toinho Silveira foi uma figura importantíssima. Sua coluna nos deu prêmio de destaque do ano, naquela famosa festa que tinha no 1001 Noites. A gente não entrou porque não tinha smoking. Mas ficamos do lado de fora, comendo...
ZONA SUL – Vocês já eram acostumados com a rua mesmo...
JÚNIO – ...e entramos só na hora de fazer a apresentação. O Alegria Alegria despertou uma comoção no povo de Natal no sentido de que a rua tinha voltado a ter brincadeira. Isso é muito bonito. As ruas perderam as brincadeiras com o tempo. Passaram a ser local de perigo, todo mundo segurando sua bolsa embaixo do braço. Desconfiando de todos. Se eu passar com a camisa furada o cara já acha que sou bandido. Às vezes nem sabe que geralmente o bandido está bem arrumado, ao lado dele. Começamos a ter um espaço que grupo nenhum, naquele momento dentro do estado tinha. Era o teatro que ia a qualquer lugar, que chegava a qualquer lugar, que tinha uma facilidade enorme.
ZONA SUL – Isso provocou ciúme nos outros grupos?
JÚNIO – Acho que algumas pessoas deram uma afastada e passaram a olhar de forma diferente. Mas outras figuras se aproximaram mais ainda. O Chico Vila, que já faleceu, foi diretor nosso em um espetáculo. Era uma figura que sempre estava lá conversando com a gente, sempre assistindo. O João Marcelino era figura que admirava, sempre via ele nas rodas assistindo nosso espetáculo. E outras figuras chegaram. Mas a gente também não tinha muito essa preocupação. A gente sabia que não estava fazendo um espetáculo para a classe, nem para a crítica, mas para o povo. Eu fiquei muito feliz porque passei a ser um dos caras mais conhecidos daquela região ali. Eu morava na Princesa Isabel, e as vezes quando eu passava era conhecido pelos mendigos. Eles não me pediam esmolas, perguntavam quando tinha espetáculo. Eu chegava em uma sapataria ali na Câmara Cascudo e era atendido com uma rapidez muito grande. Uma vez fui comprar um sapato e um dos vendedores falou: “rapaz, eu gosto muito do espetáculo, mas esse horário não é bom pra gente que trabalha no comércio. Vocês começam às cinco, a gente fecha às cinco e meia e ainda tem que arrumar as prateleiras todas. Quando a gente chega, só vê o final”. Nós mudamos o horário pras seis horas, que era para atender nosso público. Dali aparecia um convite para fazer apresentação na Cidade Nova, nas Quintas, nas Rocas, tinha tudo isso. Fizemos uma vez uma Rota do Perigo, chamavam a rota do fumo. Fazer espetáculo onde o pessoal diz que tem boca de fumo, lá nas favelas. Km6, Favela da Alta Tensão, Favela da Lavadeira. Esse era o público que nunca tinha visto teatro.
ZONA SUL – Qual teria sido o espetáculo do qual você participou que mais obteve sucesso?
JÚNIO – O espetáculo que mais marcou foi o que considero a minha estréia, não diminuindo os outros trabalhos, que é O assalto, que foi o primeiro espetáculo que fiz com um diretor que não era de Natal. Só que houve um problema. Só fizemos quatro apresentações. Fizemos três em Natal e uma no Paraná. Ele marca uma trajetória muito curta, mas ele marca pela existência de um processo de trabalho, pela minha educação como ator. Agora, o trabalho que mais tempo ficamos em cena e que mudou de alguma forma uma história, foi As aventuras de Pedro Malasartes pelos caminhos tenebrosos do sertão. Eu fiz 1462 vezes o mesmo personagem, o mesmo espetáculo. Eu fazia o papel de Pedro Malasartes, eu fazia o papel principal. Lógico que o mesmo espetáculo a gente nunca fez, sempre era diferente. Sou um ator, como o povo diz, caqueiro. Coloco caco demais. Escutei alguém falando, se acho que dá pra aproveitar, sacudo no meu texto, em vez de ser uma resposta positiva, e depois ele fica ou não. Se for negativa, eu tiro mais tarde. E a rua permite isso. No palco não, porque tem o tempo da luz, o tempo do outro ator, o tempo cenário, o tempo do figurino e o tempo do público. Tudo isso determina o tempo do espetáculo. Na rua, não. A rua é livre. Espetáculo certinho na rua tem a tendência de virar um teatro de palco na rua. Pedro Malasartes foi uma escola de teatro. A partir desse espetáculo, as portas do interior do Rio Grande do Norte se abriram pra mim, quando comecei a descobrir outra vida, que não era a vida da capital. Comecei a ver o quão gostoso é o sertão. Eu não conhecia direito o sertão, tinha passado pelo sertão. Mas viver no sertão, então começa a abrir. Surgiu um grupo em Lagoa Nova, de filhos de agricultores, que tinha como bandeira construir uma casa de farinha. Nos convidou, fomos pra Lagoa Nova trabalhar com esse grupo e trabalhar com as crianças a linguagem do palhaço e com esse grupo o teatro. Surgiu em Mossoró um movimento de teatro de rua que já vinha do Grupo Terra, do Aécio Cândido, que era de palco e já estava saindo pra rua, surgiu o Arruarte, que mais tarde virou o Escarcéu. A gente vinha pra cá participar com eles do trabalho inicial da estréia do espetáculo. Surgiu em Currais Novos o Boca de Rua, que era do Jefferson Fernandes, então fui dirigir o primeiro espetáculo. Começou a abrir mercado de trabalho na área. Tanto que saí da Fundação José Augusto sem nenhum trauma, em seguida. Saí com um mercado de trabalho grande.
ZONA SUL – Como foi sua passagem pela Fundação José Augusto?
JÚNIO – Ela tem uma história de um viés democrático que foi tentado logo no início do governo Geraldo Melo, mas também tem algumas coisas que acho que a gente não tava acostumado com essa primeira abertura democrática que o país estava experimentando. Algumas coisas sujaram esse processo. Primeiro foi feita uma eleição pra diretor do Teatro Alberto Maranhão. Foi feita uma reunião na Academia de Letras e nela fiaram definidos alguns candidatos. Saímos eu e a Diana Fontes. Depois o Racine lançou o nome dele também. Eu tinha sido presidente da Federação de Teatro, tinha terminado minha gestão, tinha passado dois anos como presidente. Quem assumiu foi o Sérgio Viana, eu estava saindo. E a Federação de Teatro era uma organização que estava no país todo e que tinha algumas realizações muito fortes no Rio Grande do Norte como um todo. Fui indicado para ser diretor do Teatro. Fui disputar com a Diana Fontes. No dia o Racine colocou o nome dele. Mas foi uma verdadeira máquina eleitoral. Era ônibus, kombi chegando carregando gente. Não tinha um cadastro de artistas, ninguém tinha uma carteira, um documento dizendo que era artista. Qualquer pessoa chegava lá e dizia que era artista. Nós perdemos para Diana Fontes. Se não me engano, uma média de 10 ou 12 votos, por aí. Perdemos para Diana, tudo bem. Assumiu o teatro com o nosso apoio. O Chico Alves, que estava na Fundação, uma indicação de Woden Madruga, pegou o cargo de chefe do Núcleo de Artes Cênicas, que juntava o Circo da Cultura e o teatro, e disse: “o segundo lugar fica nesse cargo”. Lá encontrei com Babal, que já estava na área da música, com Hermano Figueiredo, no cinema, e aquela moçada todinha e passamos a ficar dentro da mesma sala. O nosso processo lá foi do rompimento, da saída da FJA de uma atuação só metropolitana para uma fora dessa região. Saí num carro da FJA fazendo convênio em Caicó, Currais Novos. Fizemos a mostra de teatro popular e de dança, em Caicó a gente fez o Circuito de Teatro e Dança do RN, tanto dançava grupo de balé do Zás Trás, um grupo de Mossoró, o Alegria Alegria. A gente saiu fazendo convênios com essas estruturas todas. No meio dela tinha uma cidadezinha que pouca gente conhecia, perdida lá no sertão, chamada Janduís, que estava numa efervescência cultural tremenda, principalmente na área da poesia. Saiu matéria em Veja, Globo e tal. Um dia Woden me chamou e disse que ia para o I Congresso Nacional de Secretários de Cultura do Brasil, que estava sendo criado naquele instante. Ele disse que tava vendo na programação que tem uma discussão sobre Janduís, e não conhecia nada de lá. Eu disse que conhecia e lhe passei todas as informações. O Raí Lima tinha chegado do Rio e estava fazendo um trabalho muito legal. E fui conhecer e me encantei pelo trabalho, até hoje sou janduiense adotado. Sou cidadão janduiense. Minha passagem pela Fundação foi criar essa possibilidade de que a gente se interiorizasse, deixasse de ser um órgão da cultura só da cidade. As coisas eram muito centralizadas em Natal, em Mossoró. Os grupos de lá quando se reuniam era para chorar que nada chegava aqui. Chegavam lá os cartazes e no máximo os grupos da cidade sabiam. Em todas as cidades que tinham dos ministérios, do Serviço Nacional de Teatro, os editais de auxílio e montagem, geralmente um grupo do RN, de Mossoró não ganhava porque não tinha como se inscrever. Quem ganhava era o de Natal. A gente foi nessa perspectiva e era uma idéia também de governo abrir, se interiorizar.
ZONA SUL – Por que você saiu do Alegria Alegria?
JÚNIO – Junto com a Fundação José Augusto, com esse conhecimento do interior todo, surgiu, em 1991, o Movimento Popular Escambo Livre de Rua, que integro até hoje. São 17 anos dentro deste movimento. Quando o Escambo surgiu, eu ainda era da FJA. Fomos a Janduís, fizemos um encontro de três dias onde cada artista levava o seu próprio alimento e lá socializava com os outros e as cozinheiras cozinhavam. A gente comia e fazia arte. E fazia produção artística. Ia na casa das pessoas saber o que elas podiam oferecer a um grupo local. Levantamos roupas, bengalas, paletó, chapéu... Foi uma coisa muito bonita. Mas a gente achava que ia ser só aquela vez. Em seguida uma cidade diz que está passando pelo mesmo problema e nós fomos a essa cidade. Nesse intervalo de tempo passei a ter uma dedicação muito grande ao Escambo. Então eu pegava minha questão da Fundação e sempre estava perto de um grupo ligado ao Escambo. Quando José Agripino reassumiu o governo, Iaperi Araújo substituiu Woden Madruga na presidência da Fundação. Voltaram todos os que estavam anteriormente. O Rio Grande do Norte brinca muito de ida e volta. Como nunca fui muito do jogo político, até hoje não tenho essa relação, não quero os favores, não tenho muita vontade de ter esses favores. Até me afasto um pouco deles. Teve uma reunião da Fundação que foi colocado que a partir daquele dia todos tinham que vestir a camisa da Fundação. Coloquei que eu já vestia uma camisa que era a da arte, antes da FJA. E a Fundação só existe porque existe a arte lá fora. E ela não faz arte e não deveria fazer de forma nenhuma, ela é a fomentadora da arte. O papel é diferente. A gente tem que fazer que a produção aconteça e nós temos que chegar para fomentar essa produção. Mas até hoje a Fundação continua um pouco amarrada nesse sentido, ela ainda acha que tem que fazer. E ela ainda é uma dificuldade na articulação com a cultura do estado. Eu digo muito que o movimento artístico cultural está muito a frente da FJA, que era já pra ter sido modificada no que diz respeito a estatuto, leis, sua forma de organização, porque ela é muito antiga, ultrapassada. Tem que se moldar ao novo. Como continua do mesmo jeito, está se tornando cada vez mais burocrática. Naquela época a gente rompia um pouco com essa burocracia porque Woden tinha uma disposição de romper. Quando eu dizia a ele não dá pra gente agüentar ficar aqui dois meses com um artista aperreando no birô, você vindo com ele na tesouraria, pra saber onde está o processo dele, por que a gente já não leva o cheque dele pronto e no pé do palco a gente paga? Faz o empenho com antecedência. Trabalhei nessa parte burocrática e sabia muito que às vezes você faz um empenho em uma hora. O empenho não é nada, é só levar pros outros assinarem. Quer pagar? Paga. Se não quer, amacia. Quando houve a mudança na Fundação, não me cabia. Eu tinha uma relação de respeito e de trabalho com Woden que não era a mesma com Iaperi. Eram outras pessoas que ele admirava e achava que seriam mais importantes naquele momento. Só que foi uma ruptura dura, porque eles não pagaram os meus direitos. Pelo contrário, fui receber e o Setor Jurídico falou que eu tinha direito ao Fundo de Garantia e só. Cargo comissionado não tinha outros direitos. Muito curioso, peguei a Constituição, e comecei a ler. Vi o 5º artigo e procurei o Sindicato. Depois de bem duas horas esperando, o advogado do Sindicato também disse que eu não tinha direito. Procurei outro advogado, Tertuliano Cabral, um menino que estava terminando Direito. Ele levou pra um professor dele que disse: “se não tem direito, vai ter a partir de agora. Vamos pra luta”. Ele pegou minha primeira causa. E o professor disse: vamos descobrir as brechas. Entramos com uma ação. Minha ação era para receber o que eu tinha direito. Eu tinha férias acumuladas, 13º, os 15% do FGTS, o FGTS e resolvemos pedir uma indenização por perdas e danos, porque ficaram me cozinhando. Houve um processo difícil durante aqueles quatro anos. Primeiro porque a Fundação não ia. E quando ia, era uma funcionária que não entendia da questão jurídica. Ficava calada. Por outro lado, o meu advogado Tertuliano, um menino novo, lendo pra caramba, terminando a Universidade, interessado em ganhar a primeira causa. Passou dez anos pra eu receber. Com o passar do tempo, Garibaldi reassumiu o governo e resolver pegar todas essas pendências e pagar. Mas pra isso tinha que haver uma negociação. Sai da FJA em 1988, isso já era 1995. Diziam que eu não recebia mais, mas eu sempre acompanhando o processo. Houve a negociação e com a questão dos juros e tudo, a indenização já estava ultrapassando os 200 mil. Chegamos a um acordo por 90 mil. Foi uma queda muito grande, mas havia necessidade. Eu estava mudando de Aracati para Carnaúba dos Dantas. Era minha volta ao Rio Grande do Norte. Minha companheira estava assumindo a Secretaria de Educação e eu estava assumindo uma assessoria do prefeito que queria fazer um trabalho diferente da cidade. Ele era ligado ao grupo político, contei a história, mas o advogado estava por aqui já furando os bloqueios. Ele aconselhou aceitar o acordo. Recebi ainda parcelado, mas foi superimportante na estruturação familiar, pois passamos a ter uma casa, que é uma base fantástica. Eu tinha me casado novamente.
ZONA SUL – Mas, e a saída do Alegria Alegria?
JÚNIO – Saí do Alegria Alegria muitas vezes. Sou um eterno iniciante. Vou morrer iniciando. Já entrei em cursos, passo um tempo, depois saio pra começar outro. Com 10 anos de Alegria Alegria entrei no meu primeiro processo de crise. A crise era essa questão da multiplicação. Eu vivia mais fora do que na sede. A gente já tinha uma estrutura muito legal. Quando começamos com o teatro infantil, a gente pagava um salário mínimo por mês aos atores. E tinha uma sede com geladeira, fogão, comida e lá se guardava a roupa. Eu estava me separando, praticamente morava lá. Quando o Alegria pegou um nome, a gente vivia de festivais fora. Quando estávamos nos preparando pro primeiro festival em Portugal, eu em Janduís fazendo um trabalho, tive um desgaste político muito forte. Devido às minhas intenções de continuar fazendo um teatro comprometido com as lutas sociais, já que o movimento era de muita efervescência, a CUT se organizando e tinha também os interesses que era de profissionalização dos outros atores. Eu queria dar voos maiores, me firmar como artista, como grupo na cidade. Eu tava também passando do período da minha prisão. Tinha sido preso, um incidente que me levou a responder a um processo, em 1993.
ZONA SUL – Que incidente foi esse?
JÚNIO – Fomos fazer um espetáculo do Pedro Malasartes em frente ao Palácio do Governo para o primeiro grupo de apoio aos aidéticos de Natal. E o hospital que cuidava disso era o Gizelda Trigueiro. Lá só tinha cinco leitos, o material era enrolado em jornal quase embaixo de uma pia. Esse era um espetáculo de solidariedade, a gente não cobrava. Nos chamaram para apresentação em frente ao Palácio do Governo, para enfocar esses problemas. E eu enfoquei isso dançando com uma boneca. Quando terminou, ficamos conversando do lado de fora. Batemos um longo papo ainda e fomos descer para nossa sede, que ficava na Ocidental de Baixo. Quando fomos saindo, um carro da Polícia nos cerca e nos convida para ir a Secretaria de Segurança. Eu, brincando ainda, disse que se era convite eu aceito ou não. O policial falou que se eu não quisesse iria à força. Eu disse que não iria só. Estávamos três pessoas. Como o João Pinheiro tinha um carro, um fusquinha, pedi que ele fosse até a sede do PT - era uma terça-feira, o partido estava em reunião - e comunicasse que eu estava descendo pra Secretaria de Segurança. O Luis Humberto, que fazia o Xexéu comigo, me acompanhou. Fazia uma semana que a gente tinha feito espetáculo na greve dos policiais civis. Quando entramos, o Doutor Maurílio, sentado na cadeira, disse: “como é que pode com tanta tristeza se prender o Alegria Alegria?”. Ele aconselhou: “Júnio, faca o seguinte, evite fazer espetáculo no Palácio, tem algumas pessoas que não gostam disso, procure outra praça”. Nessa hora entra Manoel de Brito, secretário de Segurança, que estava em uma vaquejada em Macaíba. Ligaram do Palácio pra ele. Ele entrou, não conversou conosco e só foi dizer cinco artigos pra nos enquadrar. Prenda, enquadra no artigo x, y, h... Era atentado ao pudor, formação de quadrilha, perturbação da ordem pública, desacato à autoridade... O Maurílio chega se assustou, ainda tentou conversar com ele, mas não teve jeito. Leva para a Delegacia de Candelária. Nessa hora já tinha chegado ao prédio algumas pessoas do PT, inclusive Júnior Vigilante, que na época era presidente do Sindicato dos Rodoviários. Chegou num Gol velho, encostou lá. Fomos colocados num carro da polícia às seis e meia da noite, horário do trânsito forte dentro de Natal. Saímos da Ribeira até Candelária pela Prudente de Morais, com a sirene ligada, rompendo todos os sinais como se a gente fosse bandido, ladrão de banco, assaltante importante. E vinha aquele carro seguindo, Júnior, no Gol dele, colado no carro da policia. Quando chegamos, ele desce do carro, que tava fumaçando, e pede aos policiais pra gente entrar pelo lado. Tinha na época o programa Aqui e Agora. Era muito alarmante. O delegado era Buenos Aires, já faleceu. Ele, uma figura fantástica. Disse que não ia lavrar o auto porque aquela prisão era inconstitucional, a censura tinha acabado, estávamos no período da livre expressão. “Vocês vão ficar aí, mas não estão presos”. O escrivão sentou-se comigo e perguntou meu nome todo. Respondi. Ele acrescentou: “e a alcunha?”. Eu disse que artista não tinha alcunha, tinha nome artístico. Ele escreveu. Começou a chegar gente, o movimento da Cidade da Esperança, de outros bairros. Ficaram do lado de fora com cerveja, churrasquinho, foi uma verdadeira festa do lado de fora e a gente preso. O delegado disse que a gente podia dar entrevista, se quisesse. Eu quis. Demos entrevista, alegaram que tínhamos chamado o governador de Galega do Alecrim, eu disse que sou artista de rua, não vivia nos palácios e, portanto, não tinha como saber o apelido do governador. Se vocês sabem é porque vivem lá dentro. Galega do Alecrim era a boneca com a qual eu dançava. Se ele chamava o outro de Galega eu não sabia, não conhecia esse viés. Ficamos lá, era um dia muito legal, tinha jogo Brasil e Polônia, tivemos permissão de assistir a goleada do Brasil. Perguntei até se podia tomar uma cerveja, não deixaram, mas permitiram uma Coca-Cola. Dormimos nessa cela eu e o Beto. Ele armou a rede dele, eu botei um colchão no chão. Apesar de ser de 1955, na época da repressão eu não tinha passado por aquilo, eu tinha lido quando tava no PCB e depois quando entrei no PT. Tinha lido a literatura vasta que tem sobre a questão. Me veio Vladimir Herzog na cabeça, todas aquelas figuras que estavam na barca. Eu botava a cabeça pro lado de fora e achava que não ia dar certo, botava os pés e ficava com medo. Então, passei a noite acordado. No outro dia tinha um grande café da manhã de um cara do PT com quem eu tinha tido problema com ele, numa montagem de espetáculo. Ele tinha parado o espetáculo pra fazer um discurso político e eu tinha brigado com ele. Era o Fernandão. Ele chegou com grande café da manhã que socializamos com os policiais e com os presos e de lá saímos para a primeira audiência. Lá estavam as testemunhas de acusação. O mais louco é que quando elas falavam, nós não podíamos estar na sala, mas quando a gente falava eles podiam estar rindo, mangando, zombando. Todos mandados pelo Palácio do Governo, pelo Leônidas Ferreira, o chefe de gabinete. Na noite anterior tinha havido jogo em Natal e Júnior Baiano tinha dado murro num repórter e tinha pago a fiança às 4 da manhã pra poder viajar com o Flamengo. E quando foram nos liberar eram 4 da tarde. Os bancos já estavam fechados pra pagar a fiança. Por mais que tenham dito Júnior Baiano pode, Júnio de Natal não pode? Que discriminação é essa? Tive que assinar como pobre, que não tinha condições de pagar a fiança. Tiveram que ir a uma delegacia providenciar um atestado de pobreza pra mim. Foram a Delegacia de Ponta Negra, o delegado era Osni Monte, irmão de Roberto Monte. Conseguiram trazer, chegou lá Doutor Bandeira, que estava coordenando a investigação, e não aceitou porque tinha que ser assinado pelo escrivão. Ficou nessa brincadeira todinha e findou nos levando de novo de volta pra Delegacia. Mas havia uma reunião na OAB onde chegou na Secretaria de Segurança o doutor Hélio e todo o conselho da OAB dizendo que era um absurdo, não podia acontecer. Assim mesmo voltamos pra Delegacia. Meu ex-sogro, que tinha sido delegado de Polícia, Geraldo Rabelo, foi a Delegacia. Nem esperávamos sair, mas ele teve um longo papo com o delegado e, por telefone, com Manoel de Brito. Às oito e meia disse: vamos embora. E saímos da delegacia. Meus filhos já estavam sofrendo muito, o mais velho chorava. Ficamos respondendo processo. Foi um ano, até em uma sessão que eu nem precisei mais comparecer, o promotor viu que todas as respostas estavam numa agenda da testemunha de acusação. O cara nem estava no fato, eles criaram a testemunha e deram tudo por escrito. Se perguntarem isso, responda isso. Fomos absolvidos. Mas é um processo doloroso porque um ato cênico de teatro de arte voltado pra um problema de saúde, de vida, se transformar numa polêmica toda dessa. Mas ao mesmo tempo nos deu mais coragem de continuarmos fazendo do nosso teatro uma arma também de denúncia. A gente não pode ficar só balançando a cabeça, a gente não é lagartixa. Mas, por outro lado também forçou a sair de Natal. Havia uma idéia de perseguição também. Eu não tinha essa idéia, mas as pessoas que viviam comigo começaram a ter. Foi no período em que o Centro de Direitos Humanos começou a denunciar os Meninos de Ouro de Natal. Colegas disseram que alguns de nós tínhamos que sair de Natal. Gonzaga foi pra São Paulo e eu saí para Icapuí. Lá recebi uma dádiva, um prêmio, não precisei chegar lá pedindo. Eu tinha um recurso pra fazer um projeto com crianças lá. Recurso da Coordenadoria Ecumênica de Serviços, da Bahia. A pessoa que estava lá era Graça, militante de Natal e junto com Direitos Humanos me passaram esse recurso pra eu não chegar na cidade precisando de dinheiro. Eu tinha um trabalho. Cheguei me oferecendo pra fazer um trabalho com, na época, 7 mil URVs. Não cheguei por baixo. Fiz um trabalho interessante que depois a prefeitura assumiu. Criamos a Escolinha de Arte e eu sempre tou por lá e vivo por lá esse tempo todo. Foi momento muito marcante da saída. Por outro lado eu estava em outro processo de teatro. Queria criar um centro e não mais um grupo. Não queria ter um grupo e continuar com a responsabilidade de montar espetáculo daquele grupo, eu queria um centro que tivesse pessoas e condições de montar com quem não estava com condições de fazer ou que não recebiam recursos. Era o Centro Volante de Assessoria Teatral, que a gente chama de Cervantes do Brasil. Então saí com esse intuito. Juntamos mais seis pessoas e fizemos o Cervantes. E pegamos uma abertura enorme no Ceará porque fizemos logo que chegamos uma articulação muito forte com o Unicef. Foi quem nos apresentou ao Ceará. Chegamos lá com pouquíssimos grupos de teatro de rua e hoje tem mais de 180.
ZONA SUL – Você continua de cabeça nesse projeto.
JÚNIO – Hoje, por exemplo, eu não trabalho pra ninguém. Tava até comentando com amigos que esse ano tive um cachê de 100 reais com o que eu faço e gosto de fazer. Disse duas poesias em janeiro, ganhei 50, disse duas em maio e ganhei outros 50. Foi um primeiro semestre terrível. Mas não me aperreei. Porque sei que no segundo semestre seria diferente. Quando chega julho a gente se apega de um trabalho pra outro. Coisa normal. Início do ano tem Carnaval, Semana Santa... Então poucas prefeituras e pessoas estão investindo. Continuo dentro do movimento popular Escambo Livre de Rua. São 17 anos e 24 realizações, temos alguns apoios, a gente tem sido contemplado nos editais do BnB e isso é muito importante. Mas temos uma intenção forte de poder viver da nossa arte junto com o movimento popular. A gente tem dito muito nos encontros que nós fazemos... Faço hoje mestre de cerimônias de abertura de encontros do movimento sem aquela formalidade. Faço de vaqueiro cantando aboio... Tem mudado muito a realidade daquela coisa muito formal e as pessoas têm ficado mais a vontade pra falar. O público tem agradado mais, é uma coisa muito bonita. Tenho dito muito nesses encontros que o movimento popular – que hoje recebe muito recurso, o governo está investindo muito nos movimentos populares – ele tem que destinar uma parte considerável pra esse trabalho de arte. Porque esse trabalho de arte pode contar a história do movimento de uma forma muito mais viva do que uma palestra. De uma forma muito mais animada do que qualquer outra coisa. Nós somos verdadeiros livros andantes. Os artistas são livros que andam, livros que falam, livros que cantam. Sem tirar a força do livro. O registro é superimportante porque ele fica lá para sempre. E a gente tem sempre pregado e discutido isso. Eu quero continuar vivendo do meu trabalho junto com o movimento popular. Porque o movimento popular não me faz uma cobrança de compromisso partidário. Ele não me pede para segurar bandeiras e ficar trocando de bandeiras constantemente. Porque é isso que a gente entende hoje. E eu entendo muito que no processo político nós estamos agora atrás dos inteiros e não dos partidos. Os partidos são verdadeiros rachados, são partidos mesmo.
ZONA SUL – Estão partidos até dentro deles próprios...
JÚNIO – Sim, e nós estamos em busca de idéias que sejam dos inteiros, aquelas idéias que pensem não individualmente, não umbilicalmente, mas que pensem de uma forma muito mais ampla, aberta, mais coletiva. Isso é um discurso tão antigo da humanidade, a gente sempre criou, e está avançando mais. Pra que a gente possa se comunicar com o mundo a gente está mantendo, com algumas dificuldades, um blog - www.cervantesdobrasil.blogspot.com – onde lá está a história do nosso grupo, o Cervantes, do movimento Escambo, dos movimentos populares. É essa história da multiplicação desse fazer de arte em cantos que as pessoas não entendem que isso possa acontecer. Seguimos muito uma ação determinada em um poema de Frederico Garcia Lorca. Ele escreveu esse poema, que é uma das coisas mais lindas, ele diz assim: “Eu quero para o teatro a chegada da luz de cima sempre / Quando os de cima chegarem ao teatro tudo estará resolvido / Os de cima são aqueles que nunca viram Hamlet, Otelo, nem nada / Existem milhões de pessoas que nunca viram teatro / Mas como sabem vê-lo quando o vêem”. E a gente tem mudado esse final e colocado assim: “Existem milhões de pessoas que nunca fizeram arte / Mas como sabem fazê-la quando a fazem”. Então basta ter uma oportunidade para você ver como as pessoas fazem. E fazem bem feito. É só se aprofundar. Por outro lado, se não fizer bem feito, vai servir pra sua vida. Em vários momentos da nossa vida a gente precisa tirar a arte de dento pra resolver a situação. Eu já criei vários personagens de determinados momentos de blitzen, de confusão... Você trabalha dentro de você a não-violência, já que a violência está muito latente, pra que possa resolver aquela situação. Uso a arte como um instrumento de vida, não apenas como um instrumento de espetáculo. Porque ela nasceu na possibilidade da luta do ser humano se alimentar. Ela nasceu pra enganar e enganando os animais ele poderia matar os animais com mais facilidade, já que não tinha arma, e poder comer. Se a gente for buscar essa origem a gente vai ver que até hoje nós continuamos matando uma ruma de animal disfarçado de máscara, pintado, com figurinos coloridos pra poder viver.